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ABORTO: UM PROBLEMA DE SAÚDE OU GESTÃO PÚBLICA?

Nos últimos anos tem havido intensos debates políticos, sociais e jurídicos acerca do aborto. E não é pra menos, numa sociedade onde cada vez mais os antigos valores vêm sendo deixados de lado, defender o direito ao aborto tornou0se um dos grandes itens da cartilha politicamente correta. Como sempre houve na história, há quem é contra a prática por motivos religiosos e há quem seja a favor por motivos humanitários. Com isto, a discussão muitas vezes torna-se polarizada, um duelo entre religiosos e cientistas, crentes e ateus conservadores e liberais. Assim, a questão deixa de ser social e se torna ideológica.

No geral, as perguntas que envolvem a discussão são sempre as mesmas: onde começa a vida? É ético abortar fetos ancéfalos? A mulher tem direito sobre seu corpo? Tudo parte do pressuposto filosófico e teológico da vida ou da falta dela e assim se desenrola a questão. Até a discussão política torna0se polarizada. Em geral, os de esquerda tendem a apoiar o direito ao aborto em prol da liberdade  de escolha da mulher e os de direita tendem a suprimi-lo porque abortar seria tirar uma vida. A dificuldade do consenso não está de fato nos valores abraçados por cada lado, senão nas perguntas que foram feitas para se chegar ao problema. Proponho deixar de lado essa dicotomia e vamos tentar analisar o problema de uma outra perspectiva, fazendo outra pergunta que, acredito, até agora ninguém fez:  É o aborto um problema de saúde ou de gestão pública?

A pertinência da pergunta reside no fato de que, se por um lado dados estatísticos apontam enormes falhas no sistema de saúde pública que acabam levando à morte centenas de mulheres grávidas que não tem condições de criar seus filhos e quando elas sobrevivem acabam abandonando essas crianças, por outro lado há real interesse dos governantes em relação ao aborto pelo simples fato de que ele possibilita maior controle de natalidade sem que haja coerção por parte do Estado. Não obstante, estamos numa época onde o consumo de alimentos industrializados, a poluição e alguns fatores ambientais tem propiciado maior crescimento de doenças e problemas de saúde pouco ou jamais relatados há 100 anos atrás. De fato, o número de DSTs não aumentou por problemas de saúde pública, senão pelas novas políticas de educação sexual promovidas após o surgimento da chamada Revolução Sexual, bem como o número de estupros ocasionados pelo excesso de exposição de conteúdo sexual na TV, Internet e publicações impressas nos dias de hoje.  O mesmo pode se afirmar em relação à ancefalia e outras deformidades e doenças antes tidas como raras, agora são e certa forma comuns. É sabido que substancias industriais contidas nos alimentos e na atmosfera  podem causar sérios problemas na formação do feto, desde problemas físicos até psicológicos.  Se não há controle por parte do governo sobre as indústrias e um currículo escolar que preze pelo respeito à sexualidade humana, evidentemente que o número de crianças com problemas irá aumentar, assim como o número de adolescentes grávidas e sem quaisquer preparos para serem mães também irá aumentar, consequentemente exigindo uma resposta dos serviços de saúde. A resposta mais fácil, rápida e barata é o aborto, mas não é de fato a solução do problema.

Creio portanto, que o aborto é antes de ser um problema filosófico,teológico e social, um problema político-ambiental que tem como raízes a economia. Nos EUA por exemplo, a maior apoiadora do aborto é a Federação de Planejamento Familiar, que basicamente é uma enorme indústria que fatura bilhões de dólares com a matança de bebês em gestação. O governo na verdade não quer defender o direito das mulheres, senão de gastar menos com saúde e educação de qualidade e para isso utiliza a retórica do aborto. Da mesma forma que ele não tem o controle da indústria alimentícia, química e farmacêutica, porque está refém delas.

A questão portanto, não é se o aborto é ético, certo, errado, crime ou pecado. O que se deve discutir não é isso, e sim como torná-lo irrelevante e desnecessário.

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Renato A. O. de Andrade

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RELIGIÃO, FAMÍLIA E CONTROLE SOCIAL

07/04/2011 5 comentários

Por Renatim

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1– INTRODUÇÃO

A presente pesquisa propõe uma análise e a tentativa de se chegar a alguma resposta concreta acerca da seguinte questão: qual instituição social detém maior poder de controle social sobre o indivíduo, a família ou a religião? A questão apresentada é de importância fundamental para o entendimento do controle social e suas causas e consequências.

É preciso enfatizar que devido à natureza desta pesquisa, foi necessário desconsiderar as famílias não-religiosas e as famílias não-praticantes de sua alegada religião, posto que os efeitos da igreja sobre estas são praticamente nulos, muito embora algumas dessas famílias supracitadas possam seguir alguns princípios ou valores considerados religiosos.  Assim, trataremos apenas de conceituações de controle social aplicadas às famílias e indivíduos considerados religiosos, particularmente acerca das chamadas religiões abraamicas isto é, o Cristianismo, o Islamismo e o Judaísmo.

Neste sentido, há de se recorrer aos textos sagrados destas religiões afim de verificar os possíveis mecanismos de controle social na vida de um indivíduo e determinar o nível de influência das religiões neste contexto.

 

2 – CONTROLE SOCIAL

2.1 – DEFININDO CONTROLE SOCIAL

Paulo Brabo classifica as relações humanas em dois tipos, as institucionais e as de camaradagem. O controle social se baseia e só pode ser feito no âmbito das relações institucionais.

Falando em termos gerais, há dois tipos de associações de pessoas, as instituições e as camaradagens. O que caracteriza as instituições é que elas promovem respostas condicionadas. Num sentido muito essencial, o que fazem as instituições é cercear a liberdade e inibir a criatividade, pelo que servem basicamente como instrumentos de controle social. Prisões, igrejas, empresas, escolas, religiões e formas de governo são instituições, e guardam por essa razão, apesar das diferenças superficiais, grande familiaridade entre si.

As camaradagens, em contraste, são relações autônomas e criativas entre pessoas, e por isso têm sempre algo de informal e algo de provisório. Rodas de samba, caronas, equipes de gincana e parceiros de truco são exemplos úteis, mas também insuficientes, visto que há um enorme leque possível e efetivo de camaradagens na vida real – subsistindo nos mais diversos níveis e construídas sobre as mais diversas bases. A maior parte das camaradagens não tem nome. O que as caracteriza é que, ao contrário das instituições, as camaradagens promovem respostas não-condicionadas ao problema da relação das pessoas com o seu ambiente (incluindo o seu meio-ambiente). Ao invés de instrumentos de controle, as camaradagens servem como ferramentas de convivência.

Todo controle social parte da ideia postulada por Durkheim de que a sociedade está acima do indivíduo, porque este quando nasce tem de se adequar a ela e, portanto, submeter-se aos seus costumes, valores morais e suas regras de conduta. A sociedade humana foi construída em cima de certos valores que são perpetuados pelas chamadas Instituições Sociais. Neste sentido, pode-se concluir que a tarefa de realizar o controle social é uma incumbência e uma responsabilidade das Instituições.

A eficiência dos meios de controle social reside no fator medo. Medo de sofrer alguma represália por parte da sociedade ou do grupo onde está. Seja esta represália uma expulsão, a privação de liberdade, castigos físicos ou até mesmo a morte, a sociedade e suas instituições acreditam em sua alegada autoridade para aplicar as penas a um indivíduo que se comporta mal.

Em geral, o controle social é descrito em regulamentos e leis, que basicamente são listas de comportamentos tidos como moralmente aceitos, os moralmente corretos, os moralmente tolerados e os comportamentos imorais. A partir daí pode0se entender que a lei é  principal instrumento de coerção e controle do indivíduo. A lógica por trás de todo esse aparato é, aparentemente, muito simples: sendo a supremacia social sobre o indivíduo universalmente aceita e as ditas “autoridades” atuando como representantes legítimos da sociedade, então a melhor maneira de dizer se um comportamento se enquadra na dicotomia moral do certo/errado é através da legislação, isto é, transformar em códigos memorizáveis aquilo que só existe no plano das ideias. Então, como o indivíduo é necessariamente inferior à coletividade, este tem que acatar o código estabelecido e primar por fazer aquilo que é aceito como certo. Caso ele tropece, se não há algum nível de tolerância na lei ele deve ser imediatamente punido para servir de exemplo aos outros afim de que estes não cometam o mesmo erro.

Dentro das instituições sociais, as que mais se destacam no controle é a Família, o Estado e a Religião. Entretanto, os níveis de controle exercidos por cada um é bastante variável e em alguns grupos uma destas instituições podem não existir ou coexistirem de forma bastante desigual, principalmente quando uma é vista como ameaça à existência da outra. Como exemplo podemos citar a China comunista de Mao Tse Tung, que via a religião como algo que poderia ameaçar seu poder. Nas palavras do próprio Mao:

Religião é o ópio do povo.

Ora, Mao não queria livrar o povo chinês da “ignorância” como muitos ateus costumam se referir às práticas religiosas. O que ele queria era retirar o poder da religião dominante afim de implantar outra no lugar, a religião comunista estatal. Assim não haveria conflito entre poderes e influência. Mao escreveu o Livro Vermelho e exigiu de cada cidadão chinês que colocasse uma foto dele em suas casas. Ou seja, Mao criou um livro sagrado e se colocou como o deus da religião comunista da China, voltando aos antigos cultos aos imperadores na China Antiga.

No entanto, quando a religião e o Estado se dão muito bem entre si como ocorrera na época da institucionalização do Cristianismo provida pelo Imperador Constantino, a influência religiosa chega a patamares nunca vistos. A religião passa a se adequar ao  sistema vigente torna-se parte integrante deste sistema. A partir daí, ela passa a ter maior influência no controle social do que a própria família.

2.2 – RELIGIÃO E CONTROLE SOCIAL

Assim diz o SENHOR…

A influência social das religiões é um fato empírico e facilmente observável. Desde os primórdios da humanidade, o homem tem buscado no “mundo espiritual” respostas para suas indagações mais profundas e subjetivas. Assim nasceram as religiões, que são basicamente um conjunto estruturado de meios rituais, cerimoniais, legislativos, sociais e filosóficos concebidos através da busca humana pela divindade, a qual podemos denominar genericamente de Deus, afim de religar a humanidade perdida ao Deus Salvador por meio de uma série de procedimentos estabelecidos pelo sacerdote, que em geral baseia seus preceitos nos livros atribuídos à divindade.

Há um consenso entre os estudiosos das Ciências Sociais de que a religião exerce forte influência no controle social, assim como a família, o Estado e as leis. Para os sociólogos, as assim denominadas igrejas (compreendida aqui como um nome genérico para qualquer organização física de uma religião) podem ser categorizadas como pertencentes ao grupo das Instituições Sociais. Ora, o poder de persuasão da religião nas sociedades está claramente demonstrado pela História.  Mas o que não está claro é quem exerce maior controle sobre a vida de um indivíduo, se é a família ou a religião. Durante entrevistas para esta pesquisa, constatou-se que a grande maioria das pessoas acredita que a família tem maior influência do que a igreja. Tal opinião também é compartilhada pelos estudiosos. Entretanto, não há muita profundidade na análise do caso. A pouca influência social das igrejas sobre as pessoas só pode ser confirmada em dois tipos de famílias ou indivíduos: aqueles que não têm nenhuma religião e aqueles que não praticam sua própria religião. Como a maioria dos estudos concentra-se em pessoas que se dizem religiosas, é necessário levar em conta a hipótese de que tais pessoas podem não estar seguindo os preceitos de sua crença, neste caso estaremos lidando com os religiosos não praticantes, que para todos os efeitos, anulam quase completamente os resultados da pesquisa.

Portanto, esta presente pesquisa pretende elucidar o quão grande é o controle social promovido pelas religiões analisando os aspectos tidos como espirituais pelos seus adeptos mais fervorosos e nos Estados Teocráticos, onde igreja e Estado estão completamente unidos e complementam um ao outro afim de fortalecer o domínio.

2.3 – OS ESTADOS TEOCRÁTICOS

A união total entre Igreja e Estado estabelece um novo tipo de governo, o Estado Teocrático.  Nos Estados Teocráticos, a religião tem papel fundamental na vida das pessoas de modo que controla até mesmo os elementos que compõe a vida familiar e social. Para que este tipo de Estado funcione, é necessária certa propaganda de algumas doutrinas essenciais à manutenção do status quo. Algumas dessas doutrinas estão listadas abaixo:

  • O direito divino do governante:

Alegar que o governante possui linhagem divina predispõe a população à submissão irrestrita ao Estado. Isto ocorria particularmente em religiões antigas como  a praticada no Antigo Egito (onde o Faraó era considerado Filho de Osíris), no Xintoísmo japonês (onde o Imperador é a reencarnação de algum dos espíritos mais antigos e sábios), no Catolicismo e no Protestantismo (onde para alguns adeptos os governantes são escolhidos e mantidos por Deus), no Islamismo (alguns califas alegam serem descendentes diretos do profeta Maomé ou escolhidos por este), e no Judaísmo (particularmente na época dos Reis, onde até mesmo os mais audaciosos dos profetas diziam ser o rei um “Ungido de Deus”). Neste sentido, é de supor que a religião tem enorme influência no Estado e, portanto na legislação. Obtendo o controle das leis, a religião começa a partir daí a ter maior influência sobre a família, já que agora o Estado Teocrático passa a ditar as normas e comportamentos socialmente aceitos. As pessoas são então condicionadas a não questionarem os atos do governo sob pena de sofrer a grande ira divina (como pode ser lido em Romanos 13).

  • Infalibilidade Sacerdotal:

A doutrina da Infalibilidade Sacerdotal é essencial porque aliena as pessoas e as conformam com o que o sacerdote diz. E isto é viável ainda mais quando o próprio governante é o sacerdote supremo da religião, tal como ocorria nas regiões mesoamericanas. Além disso, a palavra do sacerdote tem peso muito maior para o indivíduo religioso do que a palavra da sua família, posto que o sacerdote é infalível mas o pai e a mãe não,  portanto estes últimos estão sujeitos a erros.  O sacerdote pode assim ditar regras de convívio familiar de acordo com o que iria beneficiá-lo melhor ou para esconder seu falso moralismo. Isto ocorria nas religiões sumério-babilônicas onde alguns pais cediam suas filhas aos templos da deusa Astarote para praticarem a prostituição cultual de modo a atender às “exigências” da deusa que o sacerdote transmitia ao povo.

  • O Templo como morada da divindade:

A ideia de que o templo é a morada da divindade tem efeito enorme nas religiões monoteístas, principalmente no Cristianismo Protestante e nas correntes do Pentecostalismo. É comum as lideranças dessas igrejas se referirem ao templo como Casa de Deus e usarem um discurso de que é mais importante ir à Igreja do que ficar em casa ou dar um passeio cm a família. Assim, coloca-se a igreja num patamar acima da família e, portanto, deve ser mais obedecida do que esta última. Os templos na verdade podem se caracterizar como locais de educação e coerção coletiva, na qual as “ovelhas” são levadas ao controle social pelos “pastores” através dos cultos e rituais coletivos, de modo que uma pessoa que de início se sinta incomodada pode em poucos instantes ser coagida a participar do controle ao observar que todos participam e aceitam aquilo como normal.

Evidentemente deve haver mais algumas doutrinas úteis e universais ao sistema teocrático, mas estes três listados acima são a base da dominação. Mas todas elas tem um papel fundamental, o de rebaixar o papel da instituição familiar e colocar acima dela as bases religiosa. Isto ocorria de forma muito espetacular com o povo de Israel no Antigo Testamento.  Quando Moisés sancionou a Lei, muitas vezes usou a fórmula legitimadora “diz YHWH” para que suas palavras fossem imediatamente elevadas ao patamar divino e entendidas como se fossem leis estabelecidas pela própria divindade. Ora, contrariando os argumentos de muitos estudiosos de que a família exerce maior controle social do que as religiões, o judaísmo primitivo e teocrata estabelecia regras de conduta estritas sobre a família, chegando muitas vezes a interferir até mesmo nas relações entre seus membros. A Lei permitia por exemplo que um pai vendesse sua filha como escrava (Êxodo 21:7), o que era útil a alguns  homens ricos do povo, que poderiam criar dívidas para um judeu pobre afim de apossar-se de sua filha, o que contradizia ao mandamento dado no Decálogo “amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Qual pai que amava a filha iria dá-la como escrava? Neste sentido, Moisés embora tenha minimizado muito alguns aspectos da exploração social daquela época, continuava a legitimar muitos outros. Mas desta vez contava com o irrestrito apoio de YHWH.

Então Deus pronunciou todas essas palavras. (Êxodo 20.1)

Ao dizer que suas palavras eram inteiramente as palavras de Deus, Moisés estava retirando do povo o direito de pensar e, portanto, de questionar sua autoridade. Moisés estabeleceu então os Dez Mandamentos, mas aparentemente contradisse todos eles ao ceder à pressão social e tentar expandir cada um dos mandamentos originais e aplica-lo à vida familiar das pessoas.

No âmbito da religião judaica, a Lei estabelecia que uma mulher que tivesse relações sexuais antes de se casar com um homem indicado por seu pai, isto era visto como adultério e prostituição e portanto tal filha deveria ser punida exemplarmente para que “afaste o mal sobre Israel”. E qual era a punição? Levavam a jovem até a porta dos pais dela e a apedrejavam até que morra (Deuteronômio 22:20). Entretanto, tal lei era simplesmente a consequência de um outro ato de controle social praticado naquela época, o casamento arranjado. No sentido aplicado ao texto, é necessário enfatizar alguns aspectos afim de fazer uma análise acurada:

  • A mulher judaica, assim como nas culturas da época, eram vistas apenas como meios de reprodução e era tratada como propriedade masculina, de seu pai enquanto for solteira e de seu marido quando casada. Não obstante, a sociedade judaica não aceitava pessoas solteiras a não ser que estas fossem “consagradas” para servirem a Deus.
  • Os arranjos matrimoniais são sempre motivados por questões econômicas, étnicas, sociais ou políticas, e desconsideram qualquer afinidade ou sentimento entre os noivos. Além disto, em termos essencialmente físicos e culturais, quem se beneficia realmente com um casamento arranjado em geral é o homem.
  • A mesma lei citada acima estabelece que, caso a acusação do marido seja falsa, este deverá levar a mulher para casa e deve ficar com ela até o fim de sua vida. Não há nenhuma punição grave ao homem, que em todo caso, sai ganhando.
  • O judaísmo aqui desconsidera quaisquer sentimentos e a valorização de um ser humano por outro, posto que controla desde cedo as relações entre uma pessoa e outra.

O Livro de Eclesiástico, presente apenas em algumas versões da Bíblia, relata como as mulheres eram vistas no Antigo Israel:

Filho mal-educado é vergonha para o pai, e se for uma filha, a desgraça é ainda maior. Filha sensata arranja marido; filha sem-vergonha é desgraça para os pais. (Eclesiástico 22:3,4.)

Está claro aqui que para os judeus a mulher era inerentemente inferior e vista como desgraça. O mesmo julgamento de valor dado aos homens não é aplicado às mulheres. Citando um discurso rabínico nos tempos do Antigo Testamento, o Dr. Sherif Abdel Azeem Mohamed diz:

Os rabinos judeus tornaram uma obrigação para os homens produzirem uma descendência, a fim de propagar a raça. Ao mesmo tempo, eles não escondiam sua preferência por meninos: “É bom para aqueles cujas crianças são meninos, mas é mau para aqueles cujas crianças são meninas”, ” no nascimento de um menino tudo é alegria … no nascimento de uma menina tudo é tristeza”, e “Quando um menino chega ao mundo, a paz chega ao mundo … Quando uma menina chega ao mundo, nada chega” .

É de se observar o poder da palavra dos rabinos.

Como consequência do casamento arranjado e da condição social feminina, as mulheres sentiam-se muitas vezes infelizes por serem obrigadas a se casar com homens que não tinham afinidade ou amor por eles. É de se esperar que houvesse adultérios, relações extraconjugais e jovens perdendo sua virgindade antes de se casar por terem se apaixonado e amado outro homem que dava valor à elas. Além disso, a mencionada lei falhava num ponto biológico sério: nem todas as mulheres tem rompimento do hímen em sua primeira relação. Portanto, muitas jovens morriam inocentes. Assim, é de se questionar se tal lei poderia mesmo ter vindo de um Deus que o mesmo Moisés alegava ser justo, amoroso, criador do ser humano e onisciente ao mesmo tempo.

Para o judeu entretanto, a Lei estava acima de sua família.

O mesmo raciocínio é visível no Islamismo, visto que o próprio Maomé baseou-se em ensinamentos cristãos e judaicos para montar sua religião. Em muitos aspectos, o Islão revoga algumas práticas judaicas em relação à mulher e aos filhos. A mulher no Islamismo é tratada às vezes melhor do que no judaísmo, embora o Islão permita que o marido bata em sua esposa em caso de indisciplina. Os filhos, tanto homens quanto mulheres são considerados bênçãos de Allah e devem ser tratados igualmente. Mas cimo toda religião, o Islamismo tem uma série de leis e preceitos que devem ser rigorosamente seguidos tanto individualmente quanto socialmente, a Sharia (lei). O Alcorão não faz distinção entre Estado e Igreja, portanto o Islamismo é basicamente uma religião teocrática. Algumas práticas que beneficiam uns poucos como o caso da poligamia (que só é permitido a homens no Alcorão), a submissão feminina, a obediência estrita aos preceitos de Maomé entre outras, podem ser enquadradas como formas de controle social.

3 – A FAMÍLIA E A RELIGIOSIDADE

O motivo de alguns estudiosos alegarem que a religião tem pouca influência no controle social é a ideia perpetuada de que a família é a base da sociedade e portanto, deve ser a instituição com maior poder sobre o indivíduo. Mas particularmente na família religiosa, toda a base familiar, isto é, todo doutrinamento feito pelos pais aos seus filhos tem embasamento nos ideais da religião.

A própria ideia de que a família é uma instituição criada por Deus nos dá indícios da coerção religiosa na formação do indivíduo. Sendo a família criada por Deus, esta deve obedecer aos preceitos deste, que são teoricamente, disseminados pela religião. Neste sentido, a religião influencia a família e esta influencia o indivíduo. Logo, é possível concluir que a religião muitas vezes exerce maior influência indireta sobre uma pessoa.

Quando uma família é extremamente religiosa, tende a colocar os valores da religião acima de seus membros familiares mesmo que isto signifique a morte de uns ou outros. A religião das Testemunhas de Jeová possui um controle substancial sobre a vida de seus adeptos de tal modo que se um membro de uma família tiver precisando de uma transfusão de sangue é preferível que este venha a falecer do que receber a transfusão, porque segundo uma doutrina da religião, uma transfusão de sangue é vista como abominação por Jeová e acarreta a ira dele sobre a pessoa e a família. Assim, deixa-se de salvar uma vida em favor dos preceitos religiosos.

No que tange a famílias não religiosas, ainda assim o controle religioso é visível. Valores tipicamente espirituais como dar esmolas, promover virtudes, casamento, fraternidade estão enraizados na sociedade, embora não sejam praticados da forma como se espera.

Atualmente, os jovens em geral estão cada vez menos propensos a seguirem algum tipo de religião. Isto ocorre porque as religiões vêm perdendo cada vez mais seu controle sobre a família devido a mudanças sociais e o triunfo cada vez maior do materialismo no mundo. No entanto, pode-se acreditar que o controle estabelecido pelas religiões ainda estará presente no futuro, quando os deuses espirituais e antropomórficos forem substituídos definitivamente pelos deuses ideológicos.

4 – CONCLUSÃO

Através desta pesquisa, é possível concluir com certa probabilidade que o controle social estabelecido pelas religiões, especialmente nos Estados Teocráticos, exercem maior poder sobre a sociedade e portanto sobre os indivíduos do que a instituição da família. Embora modernamente as pessoas não se importem muito com as questões de religião, ainda é possível enxergar os valores religiosos presentes na vida social.

Além disto, é necessário enfatizar que as religiões em si não fazem controle algum se a pessoa não estiver disposta a seguir quaisquer preceitos socialmente aceitos, isto é, se a pessoa vive um estilo de vida alternativo à sociedade tal como os hippies. No entanto, mesmo nestes ainda há valores espirituais mas não de natureza religiosa institucional.

Todo controle social é ruim porque não resolve o problema pela raiz, apenas trata os sintomas. Isto ocorre porque um desvio é condicionado sempre por outro controle e assim ficamos num ciclo infinito desvio-controle e não se resolve o problema de facto. Pode-se afirmar também que o controle social inviabiliza o progresso total da humanidade, visto que através de regras e instituições socialmente  desnecessárias inibe a criatividade e o dinamismo do ser humano, impedindo-o de exercer papel ativo e funcional na construção de seu ambiente.

O problema das relações humanas não pode ser resolvido pelas instituições e sim pelos laços espontâneos de amizade e relacionamento sem táticas ou intenções coercivas. Somente se a humanidade passar a agir deste modo é que teremos enfim, uma sociedade mais humana.

5 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bíblia Sagrada, Edição Pastoral. Editora Paulus. 1995

BRABO, Paulo. A Bacia das Almas: Confissões de um ex-dependente de igreja. Mundo Cristão. 2009. Também disponível em http://www.baciadasalmas.com

GAARDER, Jostein; NOTAKER, Henry; HELLERN, Victor. O Livro das Religiões. Companhia das Letras. 2000.

Liga da Juventude Islâmica do Brasil, disponível em: http://www.ligaislamica.org.br

Portal do Islamismo, disponível em: http://www.islamismo.org

HISTÓRIA DA RIQUEZA DO HOMEM

30/03/2011 2 comentários

Este é um trabalho para a faculdade, na disciplina de Economia. Um resumo do livro História da Riqueza do Homem, do historiador Leo Huberman, cujo propósito é entender as transformações sociais nos últimos séculos a partir do ponto de vista econômico.

Clique no link abaixo para abrir ou baixar (necessita um leitor dde PDF, como Adobe Reader ou Foxit PDF Reader).

O resumo possui 11 páginas.

Resumo História da Riqueza do Homem

NÃO SE CONFORME COM O MUNDO

Por Renatim

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Se há um mal a ser chamado de “mal do século”, este é sem dúvida o conformismo. As pessoas acostumaram-se a se conformar com o sistema vigente desde que a humanidade se conhece como tal. O sistema, seja qual for (feudalismo, mercantilismo, capitalismo, comunismo, fascismo ou quaisquer outros -ismos) sempre conseguiu manter as massas populacionais longe dos holofotes das revoluções da consciência humana. Entretanto, chama-me atenção a particularidade que o sistema capitalista tem em relação aos demais sistemas mencionados, um atrativo que facilita sua aceitação e o conformismo do grande público: a possibilidade, mesmo que remota, de mobilização de classe. Isto quer dizer basicamente que, numa sociedade capitalista um indivíduo de classe inferior é constantemente tentado com a promessa de que, se ele tiver sorte e performance, ele poderá ascender as escadas da pirâmide socioeconômica e se tornar mais um dos sustentáculos do sistema. Tal tentação nos é constantemente bombardeada pelos meios midiáticos de massa, mais expressivamente pela televisão. O forte apelo televisivo ao consumismo e a projeção da imagem de um “modelo” de vida (as ditas “celebridades”) sobre o indivíduo faz com que este rapidamente perca sua individualidade e aceite uniformizar-se com o que lhe é imposto proposto pela mídia como o modo ideal de viver. Como consequência dessa uniformidade acaba-se gerando o conformismo, motivado pela retórica positivista diária dos que detém o poder: “você pode ser como eu!”.

O atrativo do conformismo portanto, é que uma pessoa simplesmente aceita sua condição social (e a dos outros) na esperança de mudar de vida algum dia. Além disso, conformar-se com o sistema gera uma sensação de segurança, posto que o “Big Brother” não o olhará como um possível dissidente que poderá coloca-lo em perigo. Mas a maior vantagem do conformismo é de que uma pessoa pode se isentar de quaisquer responsabilidades pela condição social da outra. Na retórica do capitalismo, se uma pessoa nasceu numa família rica e outra numa família pobre, isso é chamado de sorte (ou azar), ou resumido simplesmente na palavra “destino”. Consequentemente, o conformismo gera naturalmente o egoísmo, isto é, a plena incapacidade de se projetar em outra pessoa, ou até mesmo de se imaginar numa condição inferior. O egoísmo é a vivência de um indivíduo de si mesmo para si mesmo. Quando questionado sobre as outras pessoas, o egoísta em geral se resume a dizer algo como “se essa pessoa não teve uma oportunidade na vida, o problema é dela”. Mas essa pessoa ignora ou finge ignorar que a falta de oportunidade é um distúrbio artificialmente criado para manter o estabilishment em funcionamento e portanto, para suprir seu próprio egoísmo.

O culto ao egocentrismo por sua vez, gera a exploração, que é o ato de usar outra pessoa para benefício próprio, sem contanto dar-lhe algum tipo de retribuição justa. E isso por sinal é a mola propulsora do capitalismo, visto que toda a base do sistema está no lucro e especialmente na prática que podemos denominar “vício no lucro”. E lucro é em sua essência, um ato de exploração, visto que ao se lucrar com alguma coisa, uma pessoa sempre terá mais do que a outra. No capitalismo porém, o ato de lucrar acompanha uma série de fatores. É necessário enfatizar primeiramente que só existem pessoas ricas porque existem pessoas pobres, porque caso assim não fosse tais comparações seriam fatalmente falaciosas. Nesse sentido, temos a pobreza como algo intrinsecamente artificial. Se a pobreza é artificialmente produzida, então há solução. Logo, vem uma pergunta: porque então há pobres desde que a civilização se conhece como tal? Pelo desejo de um ser humano se tornar maior do que o outro, o desejo de superioridade, que tem suas raízes do egoísmo. Dizia Mahatma Gandhi que “a pobreza é o pior tipo de violência que existe”. Para Gandhi a pobreza era resultado da violação de direitos fundamentais do ser humano e do principal direito, o da igualdade. Hoje chamamos isso de Violência Estrutural. Está cientificamente comprovado que a Violência Estrutural mata muito mais pessoas do que quaisquer guerras do mundo. De fato, quando há alguma inovação tecnológica em qualquer área do conhecimento científico, os pobres são (e quando os são) os últimos a serem beneficiados. Em contraste, quando há uma catástrofe natural ou uma guerra, eles são os primeiros a receberem os efeitos nocivos… Falta de oportunidade? Sorte ou azar? Ou seria isso tudo artificialmente criado e mantido por uma elite manipuladora?

Por falar em manipulação, é sabido que os veículos de comunicação servem aos donos do dinheiro. E para o estabilshment continuar funcionando, é necessário o uso massivo desses meios para os interesses individuais daqueles que os controlam. O linguista e filósofo norte-americano Noam Chomsky, professor do MIT, escreve que para o domínio de poucos se concretizar é necessário que se mantenha a grande massa entretida, afim de não terem tempo para refletir e questionar sua própria realidade. Isso historicamente é semelhante ao que os romanos chamavam de “Política do Pão e Circo”, cujo objetivo era deixar o povo romano alheio às decisões políticas que eram tomadas pelas ditas autoridades. Portanto, o papel fundamental dos meios de comunicação em geral não é o de informar e sim de distrair. Enquanto o povo assiste programações de baixo nível moral como o Big Brother Brasil, a política mundial se desenrola nas escuras. Os governantes planejam guerras, subornos, corrompem e são corrompidos, aumentam taxas a níveis exorbitantes… E nos conformamos com isso! Somos levados a crer que ao votarmos em alguém, estamos transferindo a responsabilidade que nos cabe para as pessoas que elegemos e portanto cobramos (e quando cobramos) deles esta responsabilidade que primeiramente nos pertence.

O que podemos fazer então? Como minimizar os índices de pobreza? Escolher governantes melhores? Instituir um sistema socialista? A história é testemunha, nada disso funciona enquanto estivermos escravizados dentro de um sistema monetário. Educação? Nosso sistema educacional visa apenas preparar uma pessoa para o mercado de trabalho, aquela longa história de “ser alguém na vida”. Educação funciona, mas no atual paradigma é somente mais um instrumento de controle social, posto que não incentiva o aluno a questionar o que ele está aprendendo e assim capacitá-lo a desenvolver novas alternativas, ao contrário, nossa educação é rigidamente controlada de tal modo a nos tornarmos meros autômatos obedientes ao que é socialmente estabelecido. Para efetivamente fazermos uma mudança social, é necessário que cada pessoa se torne um agente ativo da mudança. Que cada pessoa enxergue a insanidade das guerras, da fome, da violência, da imposição, do dinheiro. Que os indivíduos passem a questionar sua própria realidade, e não se conformar com ela. Temos que nos conscientizar que na ótica do verdadeiro amor, o problema do outro é um problema nosso e nos empenharmos categoricamente em tentar solucioná-lo da maneira mais eficaz.

Se quisermos ver portanto um mundo melhor, temos que trazer para nossa mente a revolução radical.

“Seja a mudança que deseja ver no mundo” – dizia Gandhi.

Ou então, caminharemos a passos largos rumo a autodestruição.

ABORTO E ATITUDE CRISTÃ – PARTE I

Por Renato A. O. de Andrade

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Falar sobre aborto é algo controverso e cheio de polêmicas, principalmente nos dias de hoje onde o tema tem sido abundantemente bombardeado na mídia e nos meios políticos. Mesmo assim, o tema não está de fato debatido como deveria ser, porque todos os debates demonstram atitudes tendenciosas por parte dos envolvidos, o que acarreta não em uma boa discussão, mas num confronto ideológico e filosófico que não leva a sociedade à reflexão factual e profunda, mas sim à manipulação por parte do grupo que vencer o confronto…

Sabemos que o aborto é o ato de interromper uma gestação por meios naturais, artificiais ou espontâneos, sendo estes últimos disfunções no organismo da gestante (que também podem ter causas naturais ou artificiais) que impulsionam a saída do feto ainda no período de desenvolvimento deste. Também se sabe que na maioria dos países a legislação criminaliza uma prática abortiva, o que faz com que muitas mulheres procurem clínicas clandestinas e meios inseguros para abortar. Pesquisas recentes divulgaram que no Brasil, onde o aborto ainda é crime, uma em cada cinco mulheres com quarenta anos já tiveram um aborto em algum momento de sua vida. Se essa estatística é confiável eu não sei, mas o fato é que a sociedade necessita de uma revisão sobre essa questão.

Alguns podem argumentar que a questão já está sendo discutida. Não, ela não está pela simples razão de que a sociedade não tem opinião própria. Toda a nossa posição no debate vem de dois grupos, os conservadores de direita (moralistas, líderes pró-vida e principalmente os religiosos) e os liberais de esquerda (feministas, ateus, religiosos liberais, marxistas e políticos esquerdistas). Quem vencer o suposto debate, ganha o controle sobre a opinião pública.  Ou seja, não estamos levando a sociedade a refletir sobre o assunto, mas sim levando opiniões de um grupo de pessoas para serem o pensamento social. E isso nós precisamos mudar.  Precisamos discutir sem impor nossas opiniões. Precisamos mesmo é demonstrar o caminho para uma reflexão sadia e um consenso em relação ao tema. Nos acostumamos tanto com a bipolaridade das opiniões, isto é, nos submetemos tanto à filosofia taoísta do Yin-Yang (bem/mal, sim/não, certo/errado, absoluto/relativo, esquerda/direita, capitalismo/marxismo…) que esquecemos que para muitas situações existem outras alternativas. Os cristãos não devem ficar de fora. O intenso bombardeamento do assunto na mídia é um clamor aos que se dizem seguidores de Jesus para entrarem na batalha e assumirem a posição do Reino. Uma posição que antes de tudo, deve ser demonstrada com a ação e a prática e não somente ficar nos círculos teóricos. Mas afinal, qual é essa posição? É isso que este texto tenta encontrar…

A seguir, faço uma listagem de algumas das grandes questões que se possa encontrar e fazendo uma análise de cada uma, poderemos verificar o caminho que se pode tomar em relação a esse assunto.

QUESTÕES CIENTÍFICAS:

1 – O INÍCIO DA VIDA

Parte do problema está no intenso debate científico sobre quando começa uma vida, se é no momento da concepção ou no desenvolvimento dos órgãos vitais do feto. A meu ver, essa é uma discussão inútil, tendenciosa e apenas um meio de arranjar desculpas  para os interesses dos grupos pró-vida e dos grupos pró-aborto. A ciência não sabe quando começa a vida. A religião também não. A ciência diz que nos primeiros momentos da concepção, o futuro bebê é apenas um amontoado de células sem vida. Para a religião, a vida começa durante a concepção. Agora, serei pragmático: se nenhuma das opiniões são de fato absolutas, então respeitemos a vida do bebê. Sim, porque por mais que a ciência diga que aquele amontoado de células não passa de um amontoado de células, é fato que aquele mesmo amontoado de células se tornará um bebê num futuro próximo, se tudo correr bem. E por mais que a religião diga que a vida começa na concepção daquele amontoado de células, é possível que esta vida cesse de repente num aborto espontâneo por causas naturais. Ou seja, se não sabemos quando começa a vida, tampouco temos o direito de dizer quando ela deve acabar. Logo, é melhor deixar que a vida corra naturalmente.

2 – EUGENIA

Um problema sério relacionado ao aborto na questão científica (que também é moral, ética e política) é a Eugenia. Define-se como eugenia um sistema científico composto por pesquisas e métodos práticos para aprimorar a evolução humana por meio da seleção artificial. E curiosamente o primeiro cientista a cunhar o termo eugenia foi um primo de Charles Darwin, o elaborador da hipótese científica conhecida como Teoria da Evolução e Seleção Natural, que diz explicar entre outras coisas, a origem e desenvolvimento da vida na Terra. Assim, a eugenia tem ligação com a Teoria da Evolução porque parte de um pressuposto de que a evolução humana pode ser aprimorada ainda mais pela seleção artificial. O que significa esse palavreado todo? Simplesmente que eugenia se resume na destruição de pessoas indesejadas ao sistema eugênico. Com isso, a ciência eugênica quer criar super-humanos mediante a eliminação dos que ela considera como pessoas fracas. O conceito de pessoa fraca pode variar, mas basicamente cai na mesmice de sempre (deficiência física, mental e discriminação étnica, econômica e sexual). Na verdade, a eugenia era o combustível que abasteceu os tanques ideológicos de Adolf Hitler e os nazistas na Segunda Guerra Mundial. Hitler, que sonhava com um mundo de super-homens da raça ariana, considerava que para se fazer isso era preciso eliminar todos os indesejados (judeus, deficientes, homossexuais, negros etc.) de diversas formas, inclusive por meio do aborto. Abortar uma pessoa indesejada pelo sistema, um jeito “limpo” e mais econômico de se fazer eugenia…

Assim, o aborto facilita o controle social por meios eugênicos. Este é com certeza, um dos motivos pelos quais as políticas de hoje estão voltadas para a legalização do aborto como prática comum e socialmente aceitável. Alegam os eugenistas que isso faria um grande bem às crianças que nasceriam com algum tipo de deficiência, porque elas não precisarão sofrer neste mundo. Mas o furo desse argumento está na seguinte questão: se a criança não nasceu, como ela saberá o que é o tal sofrimento alegado pelos defensores do aborto eugênico? Além disso, há enorme probabilidade de que em uma futura ditadura em um país, o Estado forçar abortos com finalidade eugênica, como acontecia na Alemanha nazista. Tomemos um exemplo hipotético onde um país que tem uma considerável quantidade de brancos e uma minoria negra, e o aborto é legal. Entra então um governo branco com ideais eugenistas e ordena que forcem o aborto nas mulheres negras e impeçam casamentos entre negros e brancos. Em pouco tempo, terá somente uma população branca, porque os bebês negros que nasceriam foram abortados e não há mulatos, porque não há casamentos mistos, portanto o governo acaba de concretizar seu sonho de criar um país de brancos puros. Em suma, Hitler continua vivo nas mentes de milhões de pessoas…

3 – RISCO DE MORTE PARA A MULHER

Das discussões pautadas nos debates sobre o aborto, a mais sugestiva aos grupos pró-aborto é a gravidez de risco. Uma mulher que durante a gestação for diagnosticada com uma gravidez de risco deve ter o direito de salvar sua própria vida, abortando o bebê. Esse caso deve ser analisado com muita cautela, primeiro porque as chances de erro médico para um diagnóstico de gravidez de risco existem e segundo porque não se sabe exatamente a probabilidade factual da gestante morrer durante essa gravidez.

Os grupos pró-vida em geral dirão que a gestação deve continuar porque é uma vida que está em jogo. Mas se analisarmos o outro lado, temos duas vidas em jogo se for de fato uma gravidez de alto risco. Portanto, o argumento do risco de morte para a mãe e o bebê favorecem os grupos abortivos…

Há um grande problema porém no conceito de gravidez de alto risco. Segundo um documento do Ministério da Saúde, definir gravidez de risco pode ser algo bastante abrangente e até mesmo tendencioso. Vejamos alguns aspectos que definem uma gestação de risco, segundo o documento:

* Idade da mulher menor do que 17 anos e maior do que 35 anos;

* Baixa escolaridade;

* Peso menor do que 45 Kg e maior que 75 Kg;

* Situação conjugal insegura;

* Dependência  de drogas lícitas ou ilícitas;

E mais alguns motivos relacionados à saúde, tais como doenças crônicas, histórico de aborto eventual, etc. O que nos interessa aqui são os motivos citados acima, que estão na categoria de Características Individuais e Socioeconômicas Desfavoráveis. Se o diagnóstico médico for baseado nessas definições, então a grande maioria dos casos de gravidez na adolescência são de alto risco, afinal, grande parte dessas meninas se encontram entre todos os itens citados acima. No entanto, tal é o grande número de crianças que nascem dessas gestações de meninas de 14 anos, baixa escolaridade, nem são casadas , de baixa renda e baixo peso, e convivendo com drogas, que não existem quaisquer razões para crer e dizer que essas situações montam o palco para uma gravidez de alto risco. E se analisarmos bem, esses itens parecem estar dizendo que a gravidez de alto risco está relacionada com a pobreza, o que é uma idéia absurda e eugenista. Assim, se essas informações estiverem sendo creditadas pelos médicos que examinam as pacientes, significa uma coisa: controle social. Eliminar a pobreza eliminando os pobres. Se diz para uma mulher pobre que ela tem uma gravidez de alto risco por se enquadrar em um ou mais itens acima, e recomenda-se o aborto. Simples e fácil, rápido e transparente.

Por isso, o aborto é tão apoiado pelas elites, pelo sistema capitalista e pelo sistema marxista…

QUESTÕES POLÍTICAS

O grande lema dos candidatos nas eleições presidenciais é: vamos legalizar o aborto, oferecendo programas de saúde reprodutiva. Fora a questão do marketing eleitoral, a pergunta a ser feita é: qual é o real motivo por trás dessas promessas de legalização do aborto? Alguns argumentam que, legalizando o aborto, acabará com o sofrimento das mulheres que procuram as clínicas clandestinas, já que terá todo o processo acompanhado por profissionais qualificados para realizar tais operações. Temos então, ao menos no Brasil, mais uma pergunta: desde quando a saúde pública do país é qualificada? Os profissionais podem até ser, mas o sistema não. Mesmo assim, seria algo mais confiável do que os métodos clandestinos. De fato, poderia até ser. Porém, o governo não vai gastar milhões de reais em programas de aborto (carinhosamente denominados de Assistência à Saúde da Mulher, Programas de Saúde Reprodutiva, entre tantos outros nomes mais exóticos) apenas porque diz que está preocupado com as mulheres que buscam as clínicas clandestinas… Isso seria o mesmo que crer que o Bill Gates está dando cópias do Windows de graça pra quem quiser porque virou bonzinho. Há todo um motivo por trás disso, e bondade e amor para com essas mulheres é que não é. Vamos ver alguns deles.

1 – CONTROLE SOCIAL

Este é o motivo primordial do apoio dos políticos ao aborto. Vemos um caso desse tipo na China maoísta. O governo chinês permite o aborto, inclusive forçando-o às mulheres que tiverem o  segundo filho, já que agora  a ordem é a política de um filho só para cada família. A abertura das práticas abortivas na China é tal, que durante muito tempo muitas famílias chinesas abortavam as meninas que nasciam fazendo uma eugenia de gênero. Com isso, hoje há um desequilíbrio enorme entre a quantidade de homens e mulheres no país, que futuramente gerará grandes problemas sociais. À semelhança da China, muitos governos do mundo estão legalizando as práticas do aborto simplesmente para controlar a população, que já está nos 7 bilhões de habitantes, sendo que o ideal para alguns seria uma população mundial de 500 milhões de habitantes no máximo. Ou seja, é preciso, para os governos, diminuir a densidade demográfica. E o aborto é uma arma poderosíssima, porque é voluntário, o que retira a responsabilidade do governo.

Na verdade, o sistema atual não se preocupa com a  quantidade de pessoas, mas sim com a quantidade de pobres no mundo. Quanto mais aumenta o número de pessoas que vivem em opressão socioeconômica, maior será as chances de insatisfação e revolta popular, o que pode significar um grande perigo aos governos. Por isso, é necessário dar esmolas aos pobres ao invés de melhorarem as condições de vida deles, enquanto isso estimula-se as práticas de aborto nas camadas mais baixas da população. É tudo bem simples: quanto mais abortos tiverem, mais pobres não  irão nascer. Isso ocasiona então uma diminuição da pobreza pela eliminação dos próprios pobres, embora não totalmente porque a elite necessita de força de trabalho. Portanto, menos chances de revoluções e mais autonomia e liberdade para a elite…

2 – ABORTO E A CULTURA DO SEXO

Vivemos num mundo onde o sexo tem grande relevância na cultura social. Mas não é uma sexualidade sadia que se prega e sim a promiscuidade sexual. E este é um dos motivos políticos pela qual os governos desejam a legalização da prática. Se vivemos saturados de sexo, então temos grande probabilidade de aumentar drasticamente a população mundial. Logo, serão mais pessoas para ter emprego e alimentação e isso é deveras preocupante para os dominadores. Por isso, deve-se estimular ao máximo o comportamento abortivo e a contracepção, pois é mais barato do que promover medidas educacionais corretas em relação à sexualidade humana.

3 – PROMOVER UM SELECIONAMENTO ARTIFICIAL DE PESSOAS

Através do aborto é possível que os governos promovam uma seleção artificial de indivíduos que farão parte da sociedade.  Aldous Huxley em sua magnum opus Admirável Mundo Novo prevê um sistema social de seleção de pessoas desde o nascimento, onde cada indivíduo era predestinado a ser alguma coisa na vida, um aperfeiçoamento do sistema de castas da Índia. Embora o livro não trate de aborto, é possível usar o mesmo esquema e aplicá-lo nos propósitos abortivos. Dado um determinado critério, se um bebê em gestação não atende ao critério, então elimina-se o bebê por meio do aborto. Para isso pode-se utilizar abortos forçados ou engenharia social. No segundo caso, seria convencer a gestante de que ela não pode ter esse filho por algum motivo qualquer (como alegações de gravidez de risco, pressão econômica, instabilidade emocional e outras manipulações que se pode alegar) no mais puro estilo eugênico.

QUESTÕES SOCIAIS

1 – BANALIZACÃO DO ATO

“Uma atitude repetida é uma atitude realizada” – disse uma professora da disciplina de Negócios e Resolução de Conflitos. “Isto significa que quanto mais repetida for uma atitude, mais comum ela será” – explica. De fato, essa verdade é tal, que a vemos todos os dias na mídia. Um ato repetido, isso é, um ato propagado e estimulado tende a se tornar um ato banalizado, comum. Isto vai contra o que alguns defensores do aborto alegam, que se o aborto for legalizado a sociedade passará a ter controle sobre o ato. Vemos a banalização de muitas coisas que foram feitas por meio da propaganda em cima disto, como a promiscuidade sexual, gravidez na adolescência consumismo etc. Com o aborto não seria diferente. Assim sendo, a abertura do aborto poderia levar a uma banalização da prática de matar crianças ainda no ventre materno.

2 – INFANTICÍDIO

Para se ter uma idéia da hipocrisia que está em volta de toda a questão do aborto, vamos ver o que nos diz a ONU. Os Oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio são um conjunto de estratégias voltadas para a melhoria das condições de vida da população mundial adotado pela Organização das Nações Unidas. São objetivos bastante louváveis. O interessante é que um desses objetivos é “Reduzir a Mortalidade Infantil”. Ora, aborto é justamente isso, mortalidade infantil. Logo, como querem reduzir a mortalidade infantil se os governos incentivam o infanticídio por meio do aborto?

3 – O DIREITO DE ESCOLHA

Algumas mulheres e pessoas do movimento feminista alegam que a mulher tem o direito de escolha. Há inclusive uma organização chamada Católicas pelo Direito de Escolha, uma associação de mulheres católicas que buscam mudar a posição do Vaticano em relação a esse assunto.

O argumento principal desses grupos é que a mulher escolhe o que quer fazer com seu corpo e portanto ela pode escolher se quer abortar ou não. Porém, esse argumento é essencialmente um dos mais fracos. De fato, a mulher tem o direito de escolha sobre seu corpo, assim como toda e qualquer pessoa tem. Mas o problema é que o bebê não é o corpo da  mulher, embora esteja dentro dele. Biologicamente falando, o feto é outro corpo, não uma parte do corpo da mulher. Portanto, a mulher não tem o direito de fazer alguma coisa contra o feto, pelo simples fato de que este não é parte do corpo dela.

Além disso, se basearmos a questão toda simplesmente no direito de escolha, então teríamos que permitir quaisquer tipos de assassinatos, estupros e violências, afinal, um agressor simplesmente escolheu usar o corpo dele para fazer mal a outro corpo de outra pessoa. Assim, apelar para a questão da escolha não tem sentido.

Continua no próximo episódio…