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RESOLVENDO O ENIGMA DA TRINDADE – PARTE II

08/03/2012 5 comentários

Supondo que exista a tal Trindade (é possível que de fato, não exista), isto é, a tripla manifestação de Deus enquanto ao mesmo tempo ele seja um só, nos é necessário averiguar alguns pontos chaves que apontam para tal natureza. No geral, são estes os argumentos bíblicos utilizados para provar a existência da Trindade.

João  1: 1-4

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.

Colossenses 2:9

 Porque nele (Cristo) habita corporalmente toda a plenitude da divindade;

Gênesis 1:1

No princípio, criou Elohin o céu e a terra.

 

João 8:23-24

 

E dizia-lhes: Vós sois de baixo, eu sou de cima; vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo.
Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados.
Disseram-lhe, pois: Quem és tu? Jesus lhes disse: Isso mesmo que já desde o princípio vos disse.

Estes são alguns versículos utilizados para “provar” a ideia do Deus trino. Como se pode ver, toda a necessidade da doutrina da Trindade gira em torno da ânsia de provar que Jesus é Deus. Caso contrário, afirmam os religiosos, toda a fé cristã vai por água abaixo.

Bom, acredito não caber neste pequeno espaço uma discussão acerca da pretensa divindade de Jesus e toda aquela ideia de dualidade humana-divina (união hipostática). Isto porque não tenho a pretensão de provar que a Trindade como a conhecemos exista (o que dá razão aos postulados da divindade de Jesus) nem que ela não exista (e assim, acabar com quase dois mil anos de mentiras). Vamos ao que realmente interessa (enfim!!).

O primeiro passo para compreender a Trindade é o que todos deveriam ter feito há milênios atrás: enxergar a Deus como o Amor. E assim, despessoalizá-lo.

A afirmação dada no início do evangelho de João apenas fará algum sentido real se trocarmos a palavra Verbo pela palavra Amor. Ao fazer isto, estaremos chegando ao texto abaixo:

 

No princípio era o Amor, e o Amor estava com Deus, e o Amor era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.

Agora a afirmação tem algum sentido e não se contradiz com o dizer de Paulo em Colossenses 1:15 de que Jesus seria o primogênito de toda a criação.   Aqui entra em cena a despessoalização. Tratar a Deus como três pessoas distintas e dizer que as três formam um só Deus em mesmo poder, conhecimento e glória é chamar qualquer pessoa do mundo de idiota, já que isto vai contra qualquer lógica concebida pelo homem.  E dizer que o homem não pode compreender a lógica de Deus é cometer o pecado da preguiça intelectual.

Ao despessoalizarmos as pessoas supostamente envolvidas com a Trindade,teremos algo compreensível. Assim, ao admitirmos que Jesus não é ninguém menos do que a encarnação do Amor e não diretamente uma encarnação de Deus ou da segunda pessoa da Trindade,. Neste sentido, Jesus seria o próprio Amor encarnado. É por isso que ele era humano e dependente de Deus, mas não era Deus, caso contrário não faria sentido algum ele na condição humana ter ressuscitado a si mesmo e muito menos a suposta fala com o Pai em seu batismo. Alguns questionariam a sentença proferida anteriormente com a afirmação de Paulo de que nele está toda a plenitude da divindade, e por isso ele era Deus. Ora, se Deus é amor, então sua plenitude seria o próprio amor. Assim, Paulo poderia estar querendo dizer que em Cristo habita o amor supremo, que é justamente a plenitude de Deus e que o faz ser chamado de Filho de Deus pela prática deste amor. Assim sendo, como Deus é amor, faz sentido a afirmação de que  “eu e o Pai somos um”, já que os dois compartilham não a natureza divina, senão a natureza do amor, e por isso, tendem a agir e pensar em prol de um objetivo comum.

Dizer que o primeiro versículo da bíblia dá base para a trindade é desconsiderar os próprios judeus, que não tinham nenhuma noção de trindade. Ao contrário, a bíblia hebraica não cansa de repetir que há um só Deus, aquele que alguns pretensiosos deram o nome de YHWH (Yahweh). Para os judeus, o mundo foi criado por Yahweh com a ajuda de anjos e por isto está escrito a palavra Elohin (deuses).

Por fim, o Espírito Santo seria então a plena manifestação voluntária do homem que compreendeu o caminho do amor, entendeu a vontade de Deus e passou a praticá-la. Assim, seria o próprio agir de Deus dentro da consciência humana.

Com isto, temos Deus, Jesus como sendo a encarnação do amor de Deus (e indiretamente sendo assim parte da natureza de Deus) e o Espíirito Santo que age no homem conforme a vontade de Deus (e portanto, seria Deus agindo no homem). Este é ao meu ver, o único modo de explicar que os três são um só.

Bom, tudo isto são apenas teorias e estão abertas para discussão. O que não podemos fazer é aceitar como verdade absoluta uma coisa que sequer entendemos direito. A busca pela verdade não passa apenas por suposições e imposições. Ela deve ser entendida e sempre aberta a reformulações.

COMO LER A BÍBLIA

20/02/2012 4 comentários

1 – Use o bom senso.  Não faça como a grande maioria que elogia Abraão como um exemplo de fé. Ele poder ter oferecido Isaque  para sacrificar apenas porque em sua cultura em Ur dos Caldeus haviam religiões que pregavam o sacrifício de crianças para aplacar a fúria dos deuses ou atrair bênçãos destes. Neste sentido, ele já estava acostumado a ver isso por lá e sacrificar Isaque poderia ser considerado para ele como algo trivial. De resto, nenhum pai sensato faria uma coisa dessas com seu próprio filho, nem que divindade alguma lhe pedisse isso. Eu pelo menos não faria. E você não precisa matar uma pessoa apenas porque ela está trabalhando em um da que você não trabalha ou se afastar de sua esposa e considerá-la imunda apenas por ela estar menstruada. Em suma, repetindo: use o bom senso. Ponto final.

2 – Ao ler o antigo testamento, tenha em mente uma coisa: é um texto judeu, escrito por e para judeus, que apresenta um deus judeu, uma cultura judaica, uma visão judaica da espiritualidade, amparada por sacerdotes e reis judeus que queriam manter o controle sobre os judeus, dentro do Império Judaico. Assim sendo, não se esqueça que a Lei de Moisés e todos os seus absurdos foi escrita por judeus e para judeus, logo, não queira aplicar para si tudo o que ali está escrito se você não é judeu.

3 – Leia tudo pela ótica do amor. Quando o antigo testamento narra histórias de guerras do povo judeu, entenda que é apenas uma narrativa de acordo com a visão judaica do caso. Logo, isso não autoriza de maneira nenhuma as guerras porque na ótica do amor não existe guerras e nem há razão para ela existirem. Do mesmo modo, o amor não deixa que uma filha seja apedrejada na porta da casa de seus pais porque engravidou de seu namorado sabe-se lá o motivo.  Além disto, não há o porque negar uma transfusão de sangue  a uma pessoa que você diz amar apenas porque a interpretação de alguns afirma que isto é um grave pecado. Assim, todas as partes que envolvem legislações de pena capital, tortura, excomunhão, escravidão, morte, guerras e violência de qualquer tipo devem ser descartadas como supostas leis de Deus.  Se Deus reclamar que voce não apedrejou a sua filha ou não matou as crianças de Jericó, diga que ele é um folgado e mande-o catar coquinhos no universo ou que ele mesmo desça até aqui e faça essa matança ao invés de pedir aos homens para sujar as mãos.

4 – Selecione o que está mais próximo do pensamento e da açao de Jesus  e aplique-o em sua vida. Descarte todo o resto como aplicação prática.

5 – Duvide do que está escrito. Não leia pensando que o que você está lendo é 100% a Palavra de Deus. Muita coisa foi perdida ou modificada com as contínuas traduções e versões da Bíblia. E não arranje desculpas do tipo: Deus sabe preservar sua palavra intocada desde a antiguidade e ele já teria destruído o que era mentira. Se assim for, a Bíblia é tão divina quanto os Vedas, o Alcorão, o Bagavahd-Gita, o Ramayana, os Tri-Pitakas…

6 – Não obedeça a nada achando que se não fizer isso irá para p inferno. A Bíblia é uma narrativa, um livro de literatura que por alguma razão divina pode conter algumas palavras de Deus, mas ela não é um conjunto de leis, ordens e mandamentos que devem ser obedecidos sem questionamentos. Se quiser aplicar algum princípio, faça pelo amor e apenas com a consciência do que está fazendo.

7 – Interprete livremente, de preferencia sem os comentaristas e doutores em teologia. Aceite sim, debates e opiniões contrárias e busque sempre melhorias em suas interpretações. Revise sempre, pois amanha você pode estar com outra visão sobre o mesmo assunto. Mas lembre-se: sua vida com Deus é sua e de mais ninguém.

8 – Busque conhecimento – sábias palavras do grande ET Bilu.

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Renatim

 

MORTE AOS COMENTARISTAS!!

O cerne da mensagem do Reino, conforme enunciado por Jesus, é tão escandalosamente revolucionário e exigente que nós cristãos tratamos de aparar suas arestas mais escandalosas (todas elas), de modo a que ele não pudesse causar estrago e constrangimento a ninguém – em especial a nós mesmos.

Como resultado desse eficaz trabalho de domesticação, todo o tipo de barbaridade foi e é efetuado pelos cristãos em nome de Deus – mas, como aprendi com o Serqueira, sem firma reconhecida. Desnecessário olhar para trás e contemplar as Cruzadas. Nos nossos dias aquele que reivindica para o si o título de país mais Verdadeiramente Cristão da Terra é também o mais beligerante e consumista – sendo que a proclamação do o Reino exige de forma inequívoca e intransigente o baixar de armas e a simplicidade de vida.

Os fundamentalistas evangélicos norte-americanos, defensores últimos da integridade do evangelho, sustentam que é horrenda ofensa não crer na Bíblia literalmente. Eles de fato crêem literalmente, mas de forma cuidadosa e seletiva: isto é, quando lhes convém.

Os fundamentalistas e seus asseclas crêem que o Gênesis está falando em dias literais quando afirma que o mundo foi criado em sete dias; mas ensinam que Jesus não estava falando numa espada literal quando sentenciou: “Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão”. O nascimento virginal de Jesus deve ser entendido literalmente e seria blasfêmia sugerir o contrário; mas já Jesus não deve ser entendido literalmente quando nos convida a amar os inimigos, a emprestar sem esperar receber de volta, a oferecer a outra face, a dar liberalmente a quem pedir, a renunciar a toda pretensão de poder, a colocar o outro em primeiro lugar, a não ajuntar tesouros na terra, a renunciar a tudo para segui-lo, a nos fazermos frágeis e despretensiosos como criancinhas, a dar a vida pelos amigos.

Mais fácil é fazer-se de louco e ater-se, como fazemos invariavelmente, a lateralidades. Ninguém quer se dar ao luxo de ponderar que talvez o evangelho seja incompatível com o belicismo, a acumulação insana de bens, o egocentrismo institucional e o capeta-lismo (como dizia o velho profeta carioca Gentileza). O que Jesus disse é, na prática, irrelevante à nossa pretensão de sermos seguidores dele.

Estamos protegidos do Indomável pela nossa interpretação à prova de balas das suas palavras.

Naturalmente, estou chovendo no molhado quando falo sobre esse assunto – e olhe que volto sempre a ele. Se, falando da forma mais clara, o aclamado Søren Kierkegaard não conseguiu abrir os olhos da galera, não serei eu. Já no século retrasado, e por excelentes razões, Kierkegaard exigia a cabeça dos que fazem de intermediar o significado da Bíblia sua profissão.

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MORTE AOS COMENTARISTAS

A enorme quantidade de intérpretes contemporâneos bíblicos tem prejudicado, mais do que auxiliado, nossa compreensão da Bíblia. Ao ler os comentaristas tornou-se necessário fazê-lo como quem assiste uma peça durante a qual a profusão de espectadores e de luzes impede, por assim dizer, que desfrutemos da peça em si – e somos premiados ao invés disso com pequenos incidentes. Para assistirmos à peça temos de aprender a ignorá-los, se possível, ou entrar por um caminho que não tenha sido obstruído.

O comentarista tornou-se, na verdade, o mais prejudicial dos intermediários. Se você deseja entender a Bíblia, certifique-se de lê-la sem um comentário. Pense em dois amantes. A amante escreve uma carta ao seu amado. O amado está por acaso interessada no que os outros acham da carta? Não irá lê-la sozinho? Em outras palavras, nunca lhe passaria pela cabeça lê-la com o auxílio de um comentário. Se a carta da amante estivesse escrita num idioma que ele não compreende – ora, ele por certo aprenderia a língua, mas com certeza não a leria com a intermediação de comentários. Esses de nada adiantam. O amor pela sua amada e sua prontidão em satisfazer os desejos dela tornam-no mais do que capaz de compreender a carta. É o mesmo com as Escrituras. Com a ajuda de Deus podemos entender a Bíblia muito bem. Todo comentário deprecia, e a pessoa que senta-se com dez comentários abertos e lê a Escritura… está provavelmente escrevendo o décimo-primeiro. Não está por certo lidando com as Escrituras.

Se você deseja entender a Bíblia, certifique-se de lê-la sem um comentário.

Suponha agora que essa carta da amante possua o atributo único de que cada ser humano é o amado a quem ela se dirige. E agora? Deveríamos por acaso sentar e conferenciar um com o outro? Não, cada um de nós deveria ler essa carta apenas como indivíduo, como indivíduo singular que recebeu essa carta de Deus. Ao lê-la, estaremos preocupadas em primeiro lugar com nós mesmos e com nosso relacionamento com ele. Não concentraremos nossa atenção na carta em si, no fato de que essa passagem possa ser interpretada de uma forma e esta de outra – de forma alguma: o importante para nós será agir, e o mais cedo possível.

Não é então algo singular ser o amado, e não nos dá esse algo uma vantagem que nenhum comentarista possui? Pense a respeito. Não somos nós os melhores intérpretes das nossas próprias palavras? E em seguida o amante e, em relação a Deus, o verdadeiro crente? Não devemos esquecer que as Escrituras são meras placas rodoviárias: Cristo, o amado, é o caminho. Morte aos comentaristas!

A questão é simples. A Bíblia é muito fácil de entender. Mas nós cristãos somos um bando de vigaristas trapaceiros. Fingimos que não somos capazes de entendê-la porque sabemos muito bem que no minuto em que compreendermos estaremos obrigados a agir em conformidade. Tome qualquer palavra do Novo Testamento e esqueça tudo a não ser o seu comprometimento de agir em conformidade com ela. Meu Deus, dirá você, se eu fizer isso minha estará arruinada. Como vou progredir na vida?

Aqui jaz o verdadeiro lugar da erudição cristã. A erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para defender-se da Bíblia; para assegurar que continuemos sendo bons cristãos sem que a Bíblia chegue perto demais. Ah, erudição sem preço! O que seria de nós sem você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. De fato, já é coisa terrível estar sozinho com o Novo Testamento.

Terrível coisa é estar sozinho com o Novo Testamento.

Abro o Novo Testamento e leio: “Se você quer ser perfeito, venda todos os seus bens e dê aos pobres, e venha me seguir”. Meu Deus, se fôssemos de fato fazer isso, todos os capitalistas, todos os funcionários públicos e empreendedores, toda a sociedade na verdade, seríamos reduzidos à condição de quase mendigos! Estaríamos em maus lençóis não fosse a erudição cristã! Louvado seja todo aquele que trabalha para consolidar a reputação da erudição cristã, que ajuda a refrear o Novo Testamento, esse livro perturbado que passaria por cima de nós uma, duas, três vezes se andasse à solta (quer dizer, se a erudição cristã não o refreasse).

O que precisamos realmente, portanto, é de uma reforma que coloque até mesmo a Bíblia de lado. Sim, isso teria hoje em dia a mesma validade que teve o rompimento de Lutero com o papa. A presente ênfase em “voltar à Bíblia” tem, infelizmente, criado religiosidade a partir de uma trapaça erudita e literalista—mera manobra de diversão. Tragicamente, esse tipo de conhecimento tem gotejado gradualmente sobre as massas, de modo que hoje em dia ninguém é mais capaz de simplesmente ler a Bíblia. Todo nosso saber bíblico tornou-se nada além de uma fortaleza de desculpas e escapes. Quando se trata de existência, de obediência, há sempre algo de que devemos cuidar antes. Vivemos sob a ilusão de que devemos primeiro ter a interpretação correta ou a crença em sua forma perfeita antes de podermos começar a viver – quer dizer, nunca chegamos a fazer o que a Palavra diz.

A igreja vem há muito precisando de um profeta em temor e tremor que tenha a coragem de proibir o povo de ler a Bíblia. Sou tentado, portanto, a fazer a seguinte proposta. Coletemos todas as nossas Bíblias e juntemo-las em algum lugar aberto ou no alto de uma montanha e então, enquanto todos ajoelhamos, alguém fale com Deus da seguinte maneira:

“Leve esse livro de volta. Nós, cristãos, tais como somos, não somos aptos a nos envolver com tal coisa; ela apenas nos torna orgulhosos e infelizes. Não estamos prontos para ela.”

Em outras palavras, sugiro que nós, como os aldeões cujo rebanho de porcos arrojou-se na água e afogou-se, imploremos a Cristo que “retire-se de nós” (Mateus 8:34). Isso pelo menos seria um discurso honesto – algo muito diferente da erudição nauseante e hipócrita tão prevalente hoje em dia.

Em vão a Bíblia comanda com autoridade. Em vão ela admoesta e implora. Não ouvimos – isto é, ouvimos a sua voz apenas pela intermediação/interferência da erudição cristã, dos especialistas que tiveram treinamento adequado. Da mesma forma que um estrangeiro exige os seus direitos numa língua estranha e ousa apaixonadamente dizer palavras ousadas ao enfrentar autoridades do Estado – mas veja, o intérprete que deve traduzi-las para as autoridades não ousa fazê-lo, substituindo-as por alguma outra coisa – assim soa a Bíblia através da erudição cristã.

“Leve esse livro de volta.”

Afirmamos que a erudição cristã existe especificamente para nos ajudar a entender o Novo Testamento, a fim de que melhor possamos ouvir a sua voz. Nenhum lunático, nenhum prisioneiro de estado foi jamais confinado dessa forma. No que diz respeito a eles, ninguém nega que estão trancafiados, mas as precauções contra o Novo Testamento são ainda maiores. Nós o trancafiamos, mas argumentamos que estamos fazendo justamente o contrário, que estamos zelosamente engajados em ajudar a que ele ganhe clareza e controle. Por outro lado, naturalmente, nenhum lunático ou prisioneiro de estado poderia ser mais perigoso do que o Novo Testamento caso se permitisse que ele andasse à solta.

É verdade que nós, protestantes, empreendemos grandes esforços para que cada pessoa possua sua própria Bíblia – até mesmo em seu idioma nativo. Ah, mas como são grandes os esforços para imprimir sobre todos a noção de que ela só pode ser compreendida através da erudição cristã! Essa é nossa situação atual.

O que tentei demonstrar aqui pode ser declarado sem dificuldade:

Tenho desejado fazer as pessoas darem-se conta e admitirem que acho o Novo Testamento muito fácil de entender, mas tenho encontrado até agora a maior dificuldade para agir de forma literal em conformidade com o que ele diz tão claramente. Talvez eu pudesse ter tomado outra direção; poderia ter inventado uma nova espécie de erudição, dando à luz ainda outro comentário, mas estou muito mais satisfeito com o que fiz – uma confissão sobre mim mesmo.

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Søren Kierkegard, Provocations

Texto roubado do sáite A Bacia das Almas

Categorias:Reflexões, Teologia

DEUS NÃO TEM POVO

Uma das maiores pretensões do homem é achar que faz parte do “povo de Deus”. A ideia nefasta de que Deus tem um povo é tão absurda quanto antidivina. No entanto, desde os tempos imemoriais, as civilizações e os impérios tem explorado isto de diversas maneiras, seja para fortalecer o nacionalismo, se impor como seres superiores ou simplesmente para dar credibilidade à suas crenças ante o pluralismo religioso.
Ao afirmar-se como integrante de um suposto povo de Deus, o homem abre brecha para uma série de ações que variam de acordo com a sua concepção do que seja Deus. Curiosamente, a afirmação pretensiosa de povo de Deus não ocorria nas religiões e povos ditos pagãos, senão que o fenômeno aparenta ser forte característica do monoteísmo. Assim, os judeus acreditavam que eles eram a nação exclusiva do deus Yahweh, seu deus nacional e que refletia as particularidades e anseios dos semitas. Semelhantemente os muçulmanos se afirmam como povo do deus Allah, que nada mais é do que o deus judaico com traços árabes. Em meio a isso,  os cristãos institucionalizados de todas os times entram na batalha cujo premio é o status de raça eleita, povo escolhido de Deus, nação santa ou qualquer outro título não menos pretensioso.
Mas o status de ser povo de Deus gera um interessante efeito colateral. O povo de Deus torna-se o Deus do povo, pois o povo pensa que se apropriou de Deus de tal forma que fecharam todas as fronteiras e nacionalizaram o ser divino. Cresce então o orgulho e a luxúria, que abre várias portas para a violência, guerra e intolerância em nome de quem nada tem a ver com isso.
Como já disse em outro post, já se matou, estuprou, violentou e torturou gente demais em nome de Deus.
Portanto, para o bem da humanidade, proclamo: Deus não tem povo.

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Renatim

SOBRE A INSPIRACÃO E A INFALIBILIDADE DA BÍBLIA – Parte I

06/12/2011 3 comentários

Por Renatim

Desde há muito tempo tem havido debates calorosos  acerca de um livro conhecido como A Bíblia Sagrada. Chega-se inclusive, a ter assassinatos e torturas por parte de quem alega defender a autoridade bíblica e por quem nega tal autoridade. Como em geral os grandes debates costumam ser polarizados, temos de um lado aqueles que advogam a autoridade total, infalível e divina da Bíblia, ou como afirmava Spurgeon, “a Bíblia, toda a Bíblia e nada mais do que a Bíblia é a religião da igreja de Cristo”. Do outro lado, há os que definem a Bíblia como um mero livro de historinhas e invenções humanas e por isso não é de forma alguma, a Palavra de Deus.  A partir destas duas visões extremas, temos diversos abusos cometidos por ambos os lados em nome de Deus, ou da falta deste.

Os que afirmam ser a Bíblia 100% a Palavra de Deus costumam raciocinar da forma proposta por Norman Geisler e Thomas Howe em seu Manual de Enigmas, Dúvidas e “Contradições” da Bíblia:

                A Bíblia é a Palavra de Deus (premissa I)

               Deus não pode errar (premissa II)

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            Logo, a Bíblia não erra e portanto, é infalível (conclusão)

No entanto, deixando de lado as dicotomias tão presentes em quaisquer debates filosóficos, vamos olhar um terceiro lado, o qual eu acredito ser o mais plausível e equilibrado: a Bíblia contém a Palavra de Deus. O que significa isto afinal? Que a Bíblia não é 100% a Palavra de Deus, mas também não deixa de ter em suas páginas a Palavra de Deus. Isto quer dizer portanto, que há algumas partes desta que podem ser consideradas divinamente inspiradas e partes são simplesmente criações e interpreta­ções de uma cultura envolta de uma visão política de Deus. E neste último caso, acredito que o Antigo Testamento, em especial o Pentateuco se encaixa perfeitamente.

A lógica proposta por Geisler & Howe estaria correta se houvesse como provar a primeira premissa (A Bíblia é a Palavra de Deus). E é aqui que mora toda a problemática. Se admitirmos que a Bíblia inteira é a Palavra de Deus, teremos alguns problemas éticos e filosóficos bem interessantes que exponho a seguir, pegando apenas o Pentateuco e o comparando com as atitudes de Jesus.

O CONTRASTE ENTRE YHWH E JESUS

   Pergunte à uma ideia: A quem serves? – Bertold Bretch

Os judeus diziam que o nome de Deus era YHWH (tente pronunciar isso…), que numa transliteração posterior ficou como YAHWEH, que nas traduções muito posteriores ficou como Javé ou Jeová. Afirmavam que este Deus apareceu aos patriarcas Abrão, Isaque e Jacó, que foram os responsáveis pelo surgimento da nação judaica e que esta seria única e exclusivamente o povo de Deus. A partir de Moisés a nação passou a ser regida por um grupo de sacerdotes (que não existiam antes na identidade judaica) e por um código de conduta semelhante ao Código de Hamurábi (que foi feito muito antes) teoricamente dado por Deus a Moisés. Ora, é aqui justamente o problema. Com exceção dos Dez Mandamentos que são de fato, Palavra de Deus, a Lei de Moisés apesar de melhorar em muitos aspectos os códigos anteriores e piorar em outros, contém contradições com a conduta de Jesus no Novo Testamento e com o próprio relacionamento entre o homem e Deus. Vejamos alguns exemplos:

Se uma jovem é dada por esposa a um homem e este descobre que ela não é virgem, então será levada para a entrada da casa de seu pai e a apedrejarão até a morte.

Deuteronômio 22:20-21

Desde a primeira vez que li este versículo, estremeci e fiquei pensando se isso era de fato uma lei de Deus ou simplesmente uma lei criada por homens daquela terra para obter poder total sobre as mulheres. Fazendo uma análise deste versículo, temos que:

– A mulher não tinha direito de escolha, já que ela era dada por esposa a alguém por seu pai, o que faz deste suposto Javé um deus tipicamente machista e concentrador de poder.

– Aparentemente, ao homem não era exigido a castidade , e muito menos a pena era aplicada a ele. Portanto, Javé não é justo.

– A falta de hímem não implica necessariamente na perda da virgindade, já que esta pele pode se soltar de outras formas que não sejam relações sexuais. Além disto, há a possibilidade desta mulher ter sido abusada e estuprada em algum momento ates do casamento, o que torna a lei completamente injusta  para com elas. Portanto, este deus é falso, visto que se ele criou a mulher, deveria saber destes aspectos biológicos  e sociais que podem ocasionar a perda do hímem.

– A barbaridade chega a tal ponto de a filha ser executada na porta de seus pais. E Javé é dado como um Deus misericordioso!

– No final, tal atitude beneficia apenas o homem, visto que a mulher se enquadra na sociedade judaica como mercadoria sexual, não havendo a necessidade de sentimentos reais para se ter um casamento.

Os teonomistas não tem argumentos contra os expostos acima.  Não obstante, o problema gera uma questão ética filosófica séria:

Se YHWH é misericordioso e bom como afirma vários textos do Antigo Testamento, então Ele não poderia exigir a morte de uma jovem por não apresentar o hímem por quaisquer motivos. Se Ele é justo, estaria cometendo injustiça grave ao igualar a falta do hímem ao crime de homicídio, que é o que esta lei esta fazendo. E por fim, se um homem se casa com esta jovem e vê que ela não é virgem, mas ele a ama de verdade e a perdoa e escolhe viver com ela, não estaria este homem violando a lei de Deus? Sim! No entanto, tal homem é incrivelmente, mais misericordioso do que o próprio Deus e portanto, melhor do que Deus, o que é impossível! Conclusões:

– Javé é um deus mesquinho, sádico e vingativo E todo o resto do Velho Testamento que diz que ele é misericordioso, bondoso etc é FALSO.

– OU a dita Lei não foi criada por Deus e talvez nem por Moisés e sim por sacerdotes posteriores que afim de justificar seus atos cruéis disse que tais atos eram ordens de Javé, assim como os papas usavam Deus  para justificar atos hediondos durante a Idade Média.

Se a Bíblia é infalível e ela toda é a Palavra de Deus então optamos pela conclusão I. No entanto, a própria conclusão entra em contradição com a premissa I de Geisler & Howe, já que a conclusão de que YHWH seja um deus mesquinho, sádico e vingativo implica necessariamente na anulação de todo o resto do texto que afirma a  imagem de um deus bondoso, o que consequentemente nos leva à conclusão de que nem toda a  Bíblia é palavra de Deus. Logo, quaisquer que sejam as conclusões, temos que a credibilidade do texto bíblico está seriamente prejudicada.

No que concerne às diferenças entre as atitudes de Jesus e a lei de Moisés, tais diferenção são muito visíveis. E aqui a lógica se aplica também: Se Jesus é Deus encarnado e a Lei de Moisés era a lei de Deus, não há como ele desobedecer sua própria Lei, já que ele estava sujeito a ela enquanto estivesse em sua forma humana. Entretanto, por várias vezes Jesus pareceu desobedecer à Lei na visão dos grandes mestres da época, os fariseus. Isto significa duas outras possibilidades:

– Jesus estava desobedecendo à interpretação errada da Lei por parte dos fariseus.

– OU a tal Lei de Moisés não era de fato, Lei de Deus.

Admitindo a primeira possibilidade, temos que admitir também que havia erros nos textos do Pentateuco, já que o próprio Jesus afirmava que ninguém seguia o texto da Lei ao pé da letra como os fariseus. E não é pra menos. Durante 400 anos os judeus foram exilados na Babilônia, um povo cruel e sanguinário, adepto de religiões diferentes da praticada pelo povo judeu. No contato entre eles, pode ter havido um sincretismo,  isto é, uma mistura das filosofias religiosas, como é o caso da Cabala, mistura de judaísmo com o misticismo babilônico.  Assim, é possível que muita coisa tenha sido apreendida por aqueles que futuramente se tornariam sacerdotes do Grande Templo de Jerusalém, que tivesse influenciado no texto da Lei e em sua interpretação.

Já na segunda possibilidade, temos que Jesus anula por completo qualquer coisa que está na Lei de Moisés que se contraste com o mandamento áureo da filosofia cristã “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”, que pode ser resumido na prática do “faça aos outros aquilo que gostaria que fizessem com você”, como o próprio Jesus afirma. Há total incompatibilidade das penas de morte aplicadas no Antigo Testamento com este mandamento, já que ninguém quer matar a si mesmo, já que se fizesse isto faria em si mesmo primeiramente, o que não daria tempo de fazer em outra pessoa. Logo ninguém tem o direito de matar ninguém. Mas alguém diria que quem mata e o Estado e portanto este estaria isento deste princípio. Entretanto, o Estado é uma invenção humana para alguém manter o poder e controle sobre a vida dos outros e curiosamente, a Lei de Moisés de nada serviu quando Davi no posto de Rei adulterou com Bate-Seba e matou o marido desta. O Estado é feito, acredito, por pessoas humanas (ou semi-humanas, talvez) e é na teoria a representação de um coletivo, logo se um Estado se diz cristão (como os EUA), e se diz a representação de Deus na Terra, deve haver subordinação a este mandamento do próprio Deus encarnado.

No famoso caso da mulher adúltera, temos os fariseus trazendo uma mulher que se enquadrava nos artigos da Lei de Moisés passíveis de punição capital.  Ora, a princípio os fariseus não forneceram quaisquer provas de que a mulher foi realmente pega em adultério.  A resposta de Jesus a eles implicava em dupla condenação, a individual e a coletiva. Ao dizer “quem estiver sem pecado que seja o primeiro a lhe atirar pedra”, Jesus estava expondo violentamente o podre do indivíduo (que não vê erros em si mesmo e que deseja ter o poder sobre a vida de outra pessoa, mesmo que para isso tenha que deturpar o que Deus disse) e o podre do coletivo social humano que se rebaixa a um pequeno grupo de pessoas e acaba contribuindo com a massificação da crueldade e da exploração em nome do poder e do dinheiro.

Caso semelhante pode ser avaliado no massacre de mulheres e crianças perpetrado por Josué. De acordo com a Bíblia, Deus ordenou que Josué entrasse em Jericó e não deixasse  ninguém respirando, um massacre total que inclui animais, mulheres, crianças e idosos. O problema é: esta atitude de Yahweh é coerente com a atitude revelada por Jesus? De maneira nenhuma! Tal massacre tem, como John Piper afirma, dimensão étnica e política (e Piper é a favor do massacre, pelo simples fato de que foi Deus quem ordenou para executar seu julgamento). Ou seja, o objetivo maior de Josué era conquistar a terra de Jericó e exterminar seus habitantes, nem que para isto tenha que dizer que Deus ordenou a matança!

No entanto, os teólogos que buscam defender a integridade total da Bíblia afirma que as crianças foram poupadas de um futuro ruim já que quando elas morrem, vão direto para o céu, como anjinhos fofinhos… Lindo! Então façamos um favor à humanidade e matemos todas as crianças! E quanto às mulheres, idosos e animais? Ah, morreram porque Deus executou seu julgamento sobre os pecados deles. Muito bem, e se eu dissesse que Deus me ordenou a matar toda a humanidade por causa dos pecados e crueldades da mesma?

O que estou querendo dizer até aqui é que nossa visão acerca da Bíblia  e de Deus foi muito influenciada pela visão deturpada da sociedade judaica sobre o que seja Deus e pelos impérios que nos forneceram as doutrinas que adotamos hoje. Ao adotarmos a Bíblia como infalível e inerrante, estaremos nos submetendo às manipulações decorrentes das forças culturais destes povos, e consequentemente, concordamos com as crueldades cometidas por estes em nome de sua imagem de Deus.

Continua…

A DOUTRINA DE CRISTO

Há 1.800 anos, em meio ao mundo romano, surge uma nova doutrina, estranha, nada semelhante a nenhuma das que a haviam precedido e atribuída a um homem, Cristo.

Esta doutrina era inteiramente nova (tanto na forma, quanto na substância) para o mundo judaico que a tinha visto nascer e sobretudo para o mundo romano, onde era pregada e propagada.

Em meio às complicadíssimas regras religiosas do mundo judaico — onde, segundo Isaías, havia regra sobre regra — e à legislação romana, levada a um alto grau de perfeição, surge uma nova doutrina que negava não apenas todas as divindades, como também todas as instituições humanas e suas necessidades. Em troca de todas as regras das antigas crenças, esta doutrina não oferecia senão um modelo de perfeição interna, de verdade e de amor na pessoa do Cristo e, como consequência desta perfeição interna, a perfeição externa, preconizada pelos profetas: o reino de Deus, no qual todos os homens, não mais sabendo odiar, serão unidos pelo amor, e no qual o leão estará frente ao cordeiro. Ao invés de ameaças de castigo para as infrações das regras ditadas por antigas leis religiosas ou civis, ao invés da atração das recompensas por sua observância, esta doutrina só atraía por ser a verdade.

“Se alguém quiser cumprir Sua vontade, saberá se minha doutrina é de Deus ou se falo de mim mesmo” (Jo 7,17).

“Vós, porém, procurais matar-me, a mim que vos falei a verdade” (Jo 8,40), “e a verdade vos fará livres. Não devemos obedecer a Deus senão com a verdade. Toda adoutrina será revelada e compreendida pelo espírito da verdade. Façam o que Deus lhes manda e conhecerão a verdade” (Jo 8,36).

Nenhuma outra prova da doutrina foi apresentada além da verdade, a adequação da doutrina com a verdade.

Toda a doutrina consistia na busca da verdade e em sua observação, na efetivaçâo cada vez mais perfeita da verdade e do desejo de dela se aproximar, sempre mais, na vida prática.

Segundo esta doutrina, não é por meio de práticas que o homem se torna justo. Os corações elevam-se à perfeição interna através de Cristo, modelo de verdade, e a perfeição externa pela efetivaçâo do reino de Deus. O cumprimento da doutrina está no caminho da estrada indicada, na busca da perfeição interna pela imitação de Cristo, e da perfeição externa graças ao estabelecimento do reino de Deus.

A maior ou menor felicidade do homem depende, segundo esta doutrina, não do grau de perfeição que ele pode alcançar, mas do seu caminho mais ou menos rápido para esta perfeição.

O ímpeto para a perfeição do publicano Zaqueu, da pecadora, do ladrão na cruz é, segundo esta doutrina, uma felicidade maior que a imóvel virtude do fariseu. A ovelha desgarrada é mais querida ao coração do pastor do que 99 ovelhas não desgarradas; o filho pródigo, a moeda perdida e reencontrada são mais caros a Deus do que tudo o que nunca foi perdido.

Cada situação, segundo esta doutrina, não é mais que uma etapa para o caminho da perfeição interna e externa realizável. Eis por que ela não tem importância. A felicidade não consiste senão em aspirar sempre à perfeição; a pausa em qualquer grau de perfeição é a pausa da felicidade.

“A mão esquerda ignora o que faz a direita.” “O lavrador que toma do arado e olha para trás não é digno do reino dos céus.” “Não vos alegreis se os demónios vos obedecem, procurai que vosso nome seja inscrito no céu.” “Sede perfeitos como vosso Pai Celeste.” “Buscai o reino de Deus e sua verdade.”

O cumprimento da doutrina não consiste senão no caminhar incessante em direção à posse da verdade a cada passo mais alta, de sua atuação cada vez maior no próprio ser com um amor sempre mais ardente e fora do próprio ser na atuação perfeita do reino de Deus.

É evidente que esta doutrina, nascida no meio judaico e pagão, não podia ser aceita pela maioria dos homens, acostumados a uma vida totalmente diversa daquela por ela exigida.

A doutrina não podia ser compreendida em todo seu significado nem mesmo por aqueles que haviam aceito, porque era contrária a todos os antigos conceitos de vida.

Somente após uma série de mal-entendidos, erros, explicações restritas, retificadas e completadas por muitas gerações, o princípio do cristianismo ficou mais claro aos homens.

O conceito evangélico influenciou àqueles do judaísmo e do paganismo, e, por sua vez, estas correntes deixaram sua marca no cristianismo. Mas o conceito cristão, mais vivo, penetrava dia a dia, mais e mais no judaísmo e no paganismo agonizantes e aparecia cada vez mais puro, libertando-se dos maus elementos a que era misturado.

Os homens compreendiam melhor o sentido cristão, usavam-no sempre mais em suas vidas.

Mais envelhecia a humanidade, quanto mais claro via a doutrina de Cristo; por outro lado não pode ser diferente em qualquer doutrina social.

As sucessivas gerações corrigiam os erros das gerações precedentes e aproximavam-se mais a cada dia do verdadeiro sentido da doutrina.

Assim foi desde os primeiros tempos do cristianismo. Desde o princípio apareceram alguns homens que afirmavam ser seu modo de explicar a doutrina o único exato, e isto provaram por meio de fenômenos sobrenaturais que vinham confirmar a exatidão de suas interpretações.

Essa é a razão principal de haver sido a doutrina, primeiro, malcompreendida e, depois, desvirtuada.

Admitiu-se que a doutrina de Cristo foi transmitida aos homens não como todas as outras verdades, mas por um caminho especial, sobrenatural. De tal modo que é demonstrada não por sua lógica e por seu acordo com as necessidades da vida humana, mas pelo caráter milagroso de sua transmissão.

Esta suposição, nascida do entendimento imperfeito da doutrina, teve como resultado a impossibilidade de ser compreendida melhor. Isto ocorreu desde os primeiros tempos, quando a doutrina era interpretada de forma tão incompleta e várias vezes tão falsa, como vemos nos Evangelhos e nos Atos.

Quanto menos era compreendida, tanto mais misteriosa e mais era necessário dar provas exteriores de sua verdade. O preceito: “Não faças aos outros o que não queres que te seja feito” não precisa ser demonstrado com a ajuda de milagres e não exige um ato de fé, porque é convincente por si mesmo e satisfaz simultaneamente a inteligência e o instinto humanos, enquanto a divindade de Cristo precisava ser provada com milagres absolutamente incompreensíveis.

Quanto mais obscura era a noção da doutrina de Cristo, mais elementos milagrosos eram nela infiltrados; quanto mais nela se infiltrava o maravilhoso, tanto mais ela se afastava de seu sentido e se tornava obscura, quanto mais precisava afirmar com força sua infalibilidade, tanto mais se tornava incompreensível.

Desde os primeiros tempos, pode-se observar no Evangelho, nos Atos, nas Epístolas como a não-compreensão do sentido exato da doutrina fazia nascer a necessidade de provas milagrosas.

Isto teve início, segundo os livros dos Atos, na reunião em que os Apóstolos examinaram, em Jerusalém, a questão do batismo dos não-circuncidados e daqueles que comiam carnes sacrificadas.

A única maneira de expor a questão mostrava que aqueles que dela tratavam não compreendiam a doutrina de Cristo, que exclui qualquer cerimonia exterior: abluções, purificações, jejum, sábado. Lê-se textuamente no Evangelho: “Não é aquilo que entra na boca que macula, e sim o que sai do coração.” Eis por que a questão do batismo dos não-circuncidados não pôde nascer senão entre homens que amavam o Mestre e sentiam a grandeza de Sua doutrina, mas que ainda não a compreendiam com clareza. Assim, uma confirmação exterior de sua interpretação era para eles tão necessária quanto essa interpretação era falsa. E para resolver esta questão que provava, assim como era colocada, quão incompreendida era a doutrina, foram pronunciadas naquela assembléia as palavras terríveis e funestas:

“Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós…” (At 15,28).

Pela primeira vez os apóstolos afirmam, externamente, a exatidão de algumas de suas decisões, isto é, apoiando-se na milagrosa participação do Espírito Santo, ou seja, de Deus.

Mas a afirmação de que o Espírito Santo, isto é, Deus, tenha falado por meio dos apóstolos devia também ser provada; e foi, então, dito que no dia de Pentecostes o Espírito Santo havia descido sob forma de línguas de fogo sobre aqueles que assim o afirmaram (na narrativa, a descida do Espírito Santo precede esta deliberação, mas os Atos foram escritos muito tempo depois). Mas era também preciso confirmar a descida do Espírito Santo para aqueles que não viram as línguas de fogo (ainda que seja incompreensível que uma língua de fogo acesa sobre a cabeça de um homem demonstre ser uma verdade absoluta aquilo que este homem está para dizer); e então, foi necessário recorrer a novos milagres: curas maravilhosas, ressurreições, mortes, enfim, todos os falsos milagres de que está cheio o livro dos Atos, e que não só não

podem convencer ninguém da verdade da doutrina, mas que, ao contrário, devem levantar dúvidas.

Este modo de afirmar a verdade tinha como conseqüência afastar a doutrina de seu sentido primitivo e torná-la tanto mais incompreensível quanto mais se acumulavam as narrativas dos milagres.

Foi o que aconteceu desde os primeiros tempos e continuou crescendo sempre, chegando, em nossos tempos, aos dogmas da transubstanciação e da infalibilidade do papa, dos bispos e da Escritura, isto é, até a exigência de uma fé cega, incompreensível até o absurdo, não em Deus, não em Cristo, nem mesmo na doutrina, mas em uma pessoa, como no catolicismo, ou em várias pessoas, como na ortodoxia, ou num livro, como no protestantismo. Quanto mais se propagava o cristianismo, mais englobava um sem-número de pessoas não preparadas, e menos ele era compreendido. Quanto mais se afirmava energicamente a infalibilidade da interpretação oficial, menos possível se tornava penetrar no verdadeiro sentido da doutrina. Já ao tempo de Constantino ela reduzia-se a uma síntese confirmada pelo poder secular – síntese das discussões que ocorreram no concílio — o símbolo da fé, onde isto é dito:

“Creio nisto… nisto… nisto, e finalmente numa igreja universal, sagrada e apostólica, ou seja, na infalibilidade das pessoas que se dizem a igreja.”

De tal modo que tudo foi feito para o que o homem não creia mais nem em Deus, nem em Cristo tal como eles se revelaram, mas somente no que a igreja ordena que se acredite.

 

Leon Tolstoi

O Reino  de Deus está em vós

Categorias:Teologia

UMA NOVA TEOLOGIA É PRECISO

23/09/2010 1 comentário

Por Renato A. O. de Andrade

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A Teologia tem sido uma das ciências mais mal compreendidas pelo ser humano. Isto ocorre simplesmente porque não a consideramos  como ciência, mas como um conjunto unificado de dogmas e doutrinas sistematicamente reunidas por um credo religioso. Daí surge as enormes quantidades de Teologia, como a Reformada, a Católica, a da Prosperidade, a da Libertação, cada uma, curiosamente, se dizendo mais correta do que a outra…  Assim, sempre associamos a Teologia como uma disciplina religiosa, a ser aprendida somente pelos que aspiram cargos eclesiásticos. Nada, porém, está tão longe da verdade quanto nossas concepções daquilo que venha a ser o “Estudo de Deus”.

A construção dos sistemas teológicos sempre esteve rodeada de ideologias políticas, como foi o caso dos protestantes e dos católicos. Ao invés de se comportar como uma Ciência Natural, a Teologia se transformou num instrumento de dominação. Em nome da Teologia já se fez absurdos contra a vida e a dignidade humana. O tão aclamado João Calvino e seus comparsas, por exemplo, quis impor toda a sua teologia aos habitantes de Genebra e ai daquele que discordasse – teria o mesmo destino que era reservado aos hereges pela Igreja Católica Romana. Semelhantemente o fez Lutero, usando suas concepções para permitir o extermínio de cerca de 100 mil camponeses que somente queriam se livrar da exploração imposta pela nobreza alemã. Tudo isso em nome de meras teorias. É curioso o fato de que os ateus em geral não matam porque alguém discorda deles, mas os teólogos e suas facções sim…

Mas então o que viria a ser de fato a Teologia?

Grande parte do problema está na nossa definição do que venha a ser Teologia. Definimos a Teologia em algo como o “estudo sistemático de Deus e seus atributos”. Isto por si só é um absurdo lógico. Deus não pode ser uma cobaia para ser estudada, mas tratamos como se assim fosse. Deus é a cobaia e o recipiente para se fazer a experiência de estudo são os livros da Bíblia Sagrada, onde Deus não pode fugir. Ou seja, limitamos a Deus dentro de uma dimensão inexistente de religiosidade criada pela nossa própria mente. Feito isto, fazemos as experiências com a cobaia através de uma série de passos prescritos por nossas confissões de fé, isto é, testamos se Deus responde positivamente à predestinação, ao batismo por imersão, ao pósmilenismo etc. Depois, fazemos continhas como os Cinco Solas, as Quatro Leis Espirituais, as Sete Chaves da Vitória e blá blá blá. Por fim, apresentamos este Deus estereotipado e o impomos aos outros que queiram fazer parte de nosso clubinho. Quando alguém discorda de tal opinião, dizemos: “eu testei no meu laboratório, está tudo escrito no meu relatório, portanto, se você não aceita isto, caia fora daqui seu herege!”. Então demonizamos as opiniões contrárias.

Tudo isto tem cara de ciência, mas não é. Uma teoria científica, é para os cientistas de verdade, uma mera teoria e nada mais. Até que se prove por A mais B que ela é um fato, não poderá ser considerada uma verdade absoluta. Aliás, até mesmo as verdades absolutas da ciência não podem ser tidas como verdades absolutas, como nos é informado pela Física Quântica. Na Física Quântica, a mais universal das leis da Física simplesmente deixa de  ser universal. Um estudo publicado recentemente por um cientista quântico revela que as leis da Física mudam no universo. Isto quer dizer que a lei da gravidade pode não existir num dado ponto do universo ou a lei da termodinâmica ser ao universo em outro lugar. Assim cai por terra quaisquer definições anteriores sobre o absolutismo dessas leis no espaço, dizendo aos cientistas que eles tem muito, mas muito o que aprenderem ainda. Partindo deste ponto, podemos argumentar: se as leis da Física, que se consegue provar matematicamente por A mais B não podem ser consideradas universalmente absoluta, então porque a Teologia poderia? E seguindo o mesmo raciocínio, a Física se baseia em fatos e experimentos, enquanto a Teologia parte de pressupostos filosóficos e teleológicos em cima de algo que não se pode ver. Logo, isto deveria ser mais um motivo para que os teólogos reconheçam que suas leis e sistemas podem mudar e devem mudar. Por isso, se faz necessário um novo conceito de Teologia. Na verdade, uma nova e revolucionária Teologia é preciso.

Esta nova Teologia portanto, não é nenhuma outra coisa senão o resgate da origem da palavra e fazer jus a ela. Sendo a Teologia uma ciência, os teólogos deveriam estar abertos a quaisquer modificações em suas teorias ou suas leis. No entanto, insistimos em apegarmos a modelos antigos e ultrapassados de nossa compreensão de Deus e seu relacionamento com o homem. Os protestantes reformados se apegam aos dogmas da Teologia Reformada e caem no mesmo erro dos que eles criticaram na Igreja Católica. Para alguns, tudo o que vem antes da reforma deve ser totalmente descartado. Então em a propagação dos Cinco Solas como se fossem dogmas irrefutáveis, o que é um absurdo, porque se nem a Bíblia é irrefutável, quanto mais nossas concepções do que entendemos por Deus. A ciência admite eros passados e conserta-os no presente, mas os teólogos em geral não querem saber disso. Enquanto Einstein mudava completamente a compreensão primitiva da natureza dos movimentos e da luz feitas por Newton, os teólogos pouco fizeram para revisar o que Calvino e Lutero disseram. Os que tentavam revisar alguma coisa eram taxados de liberais ou hereges, afinal eram um grande perigo para o sistema dominante dos teólogos.

Um exemplo claro da afirmação acima está registrado na História com o nome de Concílio de Nicéia. Convocado pelo imperador Constantino, o concílio determinou que tudo o que f0osse dito contrário ao que estaria afirmando ali seria heresia e deveria ser duramente perseguido e castigado. Constantino estava lançando ali as bases do que viria a se chamar de Cristianismo (que faria mais justiça se chamasse de Constantinianismo). Assim se sucedeu com outros concílios, onde violência e a morte estavam juntas em nome daquilo que se achava ser o correto, nada muito diferente do fanatismo islâmico dos grupos xiitas. Tudo isto poderia ser evitado se a coisa toda fosse tratada apenas como teorias científicas ao invés de dogmatismo religioso.

Lutero, quando questionado sobre a possibilidade de diversas interpretações de um mesmo texto se a bíblia fosse divulgada, argumentou que era melhor que assim se fizesse do que deixar o texto nas mãos do clero católico. Um belo discurso se fosse levado a sério. No entanto, parece que ele recuou. O posto de sacerdote lhe subiu à cabeça e ele simplesmente negou este direito ao povo, concentrando novamente o conhecimento teológico na mão da elite. Portanto, embora ele se propôs à mudanças no começo, acabou retornando ao mesmo catolicismo de sempre, apenas sem os santos e o Papa.

Hoje, as igrejas estão impedindo seus membros de pensarem e perguntarem. Quando alguém pergunta ou duvida daquilo que está sendo ensinado, os teólogos se limitam a dizer “está escrito na Bíblia” ou “a Teologia Reformada diz isso…” ou ainda “isto que você está dizendo é uma heresia combatida há séculos no Concílio X”.  Praticamente se proíbe as pessoas de usarem seu intelecto e sua práxis de voida cristã para compreender a Deus e contribuir para uma teologia construtiva e altruísta.

Um fator que pode influenciar muito nesta improbabilidade de mudança nos modelos teológicos é o que poderíamos chamar de medo. Medo de que desacreditando na predestinação poderíamos perder nossa alma. Medo de que Deus não se agradasse de nós se duvidássemos mesmo que por um instante, da doutrina da Trindade. Todos estes medos fazem com que o ser humano não queira revisar sua própria espiritualidade, o que causa escravidão. Viramos escravos de um sistema da denominação a qual pertencemos. Daí a teologia deixa de ser ciência e passa a ser instrumento de dominação.

As teologias antigas tem seu valor. O que não podemos fazer é nos limitarmos a elas, mas sim construir uma ponte de ligação, utilizando o que há de melhor entre elas, assim como as ciências naturais estão fazendo hoje. Poderíamos por exemplo, utilizar as contribuições da Teologia Reformada com a Teologia da Libertação e chegarmos a um consenso temporário do que poderia ser realmente aproveitado entre as duas. Poderíamos nos esforçar para unirmos o melhor de Calvino e de Armínio, sem considerar uma melhor do que a outra. Isto sim é teologia científica.

O que estou querendo dizer é que se a Teologia é uma ciência, então deve ser tratada como tal. Proponho uma Teologia Livre, usando o mesmo conceito de Software Livre. Cada pessoa que quiser contribuir para os estudos teológicos poderá fazê-lo sem medo. Isto porque a Teologia Livre estará totalmente livre do copyright das denominações e das religiões, ou seja, sem dogmas e doutrinas absolutas e principalmente, livre das maquinações dos sacerdotes. Uma teologia onde cada um pode ter sua teoria e debate-la com o grupo, mas sem impô-la como a certa. Uma teologia que mereça de fato, ser chamada de ciência. As perguntas da teologia devem ser construídas pela comunidade, não o contrário. E o papel do teólogo não é responder definitivamente, mas construir e reconstruir seu sistema baseado na experiência desta comunidade com Deus.

Aí sim, a humanidade encontrará de fato o seu objeto de estudo, Deus.