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SOBRE A INSPIRACÃO E A INFALIBILIDADE DA BÍBLIA – Parte I


Por Renatim

Desde há muito tempo tem havido debates calorosos  acerca de um livro conhecido como A Bíblia Sagrada. Chega-se inclusive, a ter assassinatos e torturas por parte de quem alega defender a autoridade bíblica e por quem nega tal autoridade. Como em geral os grandes debates costumam ser polarizados, temos de um lado aqueles que advogam a autoridade total, infalível e divina da Bíblia, ou como afirmava Spurgeon, “a Bíblia, toda a Bíblia e nada mais do que a Bíblia é a religião da igreja de Cristo”. Do outro lado, há os que definem a Bíblia como um mero livro de historinhas e invenções humanas e por isso não é de forma alguma, a Palavra de Deus.  A partir destas duas visões extremas, temos diversos abusos cometidos por ambos os lados em nome de Deus, ou da falta deste.

Os que afirmam ser a Bíblia 100% a Palavra de Deus costumam raciocinar da forma proposta por Norman Geisler e Thomas Howe em seu Manual de Enigmas, Dúvidas e “Contradições” da Bíblia:

                A Bíblia é a Palavra de Deus (premissa I)

               Deus não pode errar (premissa II)

——————————————————————————-

            Logo, a Bíblia não erra e portanto, é infalível (conclusão)

No entanto, deixando de lado as dicotomias tão presentes em quaisquer debates filosóficos, vamos olhar um terceiro lado, o qual eu acredito ser o mais plausível e equilibrado: a Bíblia contém a Palavra de Deus. O que significa isto afinal? Que a Bíblia não é 100% a Palavra de Deus, mas também não deixa de ter em suas páginas a Palavra de Deus. Isto quer dizer portanto, que há algumas partes desta que podem ser consideradas divinamente inspiradas e partes são simplesmente criações e interpreta­ções de uma cultura envolta de uma visão política de Deus. E neste último caso, acredito que o Antigo Testamento, em especial o Pentateuco se encaixa perfeitamente.

A lógica proposta por Geisler & Howe estaria correta se houvesse como provar a primeira premissa (A Bíblia é a Palavra de Deus). E é aqui que mora toda a problemática. Se admitirmos que a Bíblia inteira é a Palavra de Deus, teremos alguns problemas éticos e filosóficos bem interessantes que exponho a seguir, pegando apenas o Pentateuco e o comparando com as atitudes de Jesus.

O CONTRASTE ENTRE YHWH E JESUS

   Pergunte à uma ideia: A quem serves? – Bertold Bretch

Os judeus diziam que o nome de Deus era YHWH (tente pronunciar isso…), que numa transliteração posterior ficou como YAHWEH, que nas traduções muito posteriores ficou como Javé ou Jeová. Afirmavam que este Deus apareceu aos patriarcas Abrão, Isaque e Jacó, que foram os responsáveis pelo surgimento da nação judaica e que esta seria única e exclusivamente o povo de Deus. A partir de Moisés a nação passou a ser regida por um grupo de sacerdotes (que não existiam antes na identidade judaica) e por um código de conduta semelhante ao Código de Hamurábi (que foi feito muito antes) teoricamente dado por Deus a Moisés. Ora, é aqui justamente o problema. Com exceção dos Dez Mandamentos que são de fato, Palavra de Deus, a Lei de Moisés apesar de melhorar em muitos aspectos os códigos anteriores e piorar em outros, contém contradições com a conduta de Jesus no Novo Testamento e com o próprio relacionamento entre o homem e Deus. Vejamos alguns exemplos:

Se uma jovem é dada por esposa a um homem e este descobre que ela não é virgem, então será levada para a entrada da casa de seu pai e a apedrejarão até a morte.

Deuteronômio 22:20-21

Desde a primeira vez que li este versículo, estremeci e fiquei pensando se isso era de fato uma lei de Deus ou simplesmente uma lei criada por homens daquela terra para obter poder total sobre as mulheres. Fazendo uma análise deste versículo, temos que:

– A mulher não tinha direito de escolha, já que ela era dada por esposa a alguém por seu pai, o que faz deste suposto Javé um deus tipicamente machista e concentrador de poder.

– Aparentemente, ao homem não era exigido a castidade , e muito menos a pena era aplicada a ele. Portanto, Javé não é justo.

– A falta de hímem não implica necessariamente na perda da virgindade, já que esta pele pode se soltar de outras formas que não sejam relações sexuais. Além disto, há a possibilidade desta mulher ter sido abusada e estuprada em algum momento ates do casamento, o que torna a lei completamente injusta  para com elas. Portanto, este deus é falso, visto que se ele criou a mulher, deveria saber destes aspectos biológicos  e sociais que podem ocasionar a perda do hímem.

– A barbaridade chega a tal ponto de a filha ser executada na porta de seus pais. E Javé é dado como um Deus misericordioso!

– No final, tal atitude beneficia apenas o homem, visto que a mulher se enquadra na sociedade judaica como mercadoria sexual, não havendo a necessidade de sentimentos reais para se ter um casamento.

Os teonomistas não tem argumentos contra os expostos acima.  Não obstante, o problema gera uma questão ética filosófica séria:

Se YHWH é misericordioso e bom como afirma vários textos do Antigo Testamento, então Ele não poderia exigir a morte de uma jovem por não apresentar o hímem por quaisquer motivos. Se Ele é justo, estaria cometendo injustiça grave ao igualar a falta do hímem ao crime de homicídio, que é o que esta lei esta fazendo. E por fim, se um homem se casa com esta jovem e vê que ela não é virgem, mas ele a ama de verdade e a perdoa e escolhe viver com ela, não estaria este homem violando a lei de Deus? Sim! No entanto, tal homem é incrivelmente, mais misericordioso do que o próprio Deus e portanto, melhor do que Deus, o que é impossível! Conclusões:

– Javé é um deus mesquinho, sádico e vingativo E todo o resto do Velho Testamento que diz que ele é misericordioso, bondoso etc é FALSO.

– OU a dita Lei não foi criada por Deus e talvez nem por Moisés e sim por sacerdotes posteriores que afim de justificar seus atos cruéis disse que tais atos eram ordens de Javé, assim como os papas usavam Deus  para justificar atos hediondos durante a Idade Média.

Se a Bíblia é infalível e ela toda é a Palavra de Deus então optamos pela conclusão I. No entanto, a própria conclusão entra em contradição com a premissa I de Geisler & Howe, já que a conclusão de que YHWH seja um deus mesquinho, sádico e vingativo implica necessariamente na anulação de todo o resto do texto que afirma a  imagem de um deus bondoso, o que consequentemente nos leva à conclusão de que nem toda a  Bíblia é palavra de Deus. Logo, quaisquer que sejam as conclusões, temos que a credibilidade do texto bíblico está seriamente prejudicada.

No que concerne às diferenças entre as atitudes de Jesus e a lei de Moisés, tais diferenção são muito visíveis. E aqui a lógica se aplica também: Se Jesus é Deus encarnado e a Lei de Moisés era a lei de Deus, não há como ele desobedecer sua própria Lei, já que ele estava sujeito a ela enquanto estivesse em sua forma humana. Entretanto, por várias vezes Jesus pareceu desobedecer à Lei na visão dos grandes mestres da época, os fariseus. Isto significa duas outras possibilidades:

– Jesus estava desobedecendo à interpretação errada da Lei por parte dos fariseus.

– OU a tal Lei de Moisés não era de fato, Lei de Deus.

Admitindo a primeira possibilidade, temos que admitir também que havia erros nos textos do Pentateuco, já que o próprio Jesus afirmava que ninguém seguia o texto da Lei ao pé da letra como os fariseus. E não é pra menos. Durante 400 anos os judeus foram exilados na Babilônia, um povo cruel e sanguinário, adepto de religiões diferentes da praticada pelo povo judeu. No contato entre eles, pode ter havido um sincretismo,  isto é, uma mistura das filosofias religiosas, como é o caso da Cabala, mistura de judaísmo com o misticismo babilônico.  Assim, é possível que muita coisa tenha sido apreendida por aqueles que futuramente se tornariam sacerdotes do Grande Templo de Jerusalém, que tivesse influenciado no texto da Lei e em sua interpretação.

Já na segunda possibilidade, temos que Jesus anula por completo qualquer coisa que está na Lei de Moisés que se contraste com o mandamento áureo da filosofia cristã “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”, que pode ser resumido na prática do “faça aos outros aquilo que gostaria que fizessem com você”, como o próprio Jesus afirma. Há total incompatibilidade das penas de morte aplicadas no Antigo Testamento com este mandamento, já que ninguém quer matar a si mesmo, já que se fizesse isto faria em si mesmo primeiramente, o que não daria tempo de fazer em outra pessoa. Logo ninguém tem o direito de matar ninguém. Mas alguém diria que quem mata e o Estado e portanto este estaria isento deste princípio. Entretanto, o Estado é uma invenção humana para alguém manter o poder e controle sobre a vida dos outros e curiosamente, a Lei de Moisés de nada serviu quando Davi no posto de Rei adulterou com Bate-Seba e matou o marido desta. O Estado é feito, acredito, por pessoas humanas (ou semi-humanas, talvez) e é na teoria a representação de um coletivo, logo se um Estado se diz cristão (como os EUA), e se diz a representação de Deus na Terra, deve haver subordinação a este mandamento do próprio Deus encarnado.

No famoso caso da mulher adúltera, temos os fariseus trazendo uma mulher que se enquadrava nos artigos da Lei de Moisés passíveis de punição capital.  Ora, a princípio os fariseus não forneceram quaisquer provas de que a mulher foi realmente pega em adultério.  A resposta de Jesus a eles implicava em dupla condenação, a individual e a coletiva. Ao dizer “quem estiver sem pecado que seja o primeiro a lhe atirar pedra”, Jesus estava expondo violentamente o podre do indivíduo (que não vê erros em si mesmo e que deseja ter o poder sobre a vida de outra pessoa, mesmo que para isso tenha que deturpar o que Deus disse) e o podre do coletivo social humano que se rebaixa a um pequeno grupo de pessoas e acaba contribuindo com a massificação da crueldade e da exploração em nome do poder e do dinheiro.

Caso semelhante pode ser avaliado no massacre de mulheres e crianças perpetrado por Josué. De acordo com a Bíblia, Deus ordenou que Josué entrasse em Jericó e não deixasse  ninguém respirando, um massacre total que inclui animais, mulheres, crianças e idosos. O problema é: esta atitude de Yahweh é coerente com a atitude revelada por Jesus? De maneira nenhuma! Tal massacre tem, como John Piper afirma, dimensão étnica e política (e Piper é a favor do massacre, pelo simples fato de que foi Deus quem ordenou para executar seu julgamento). Ou seja, o objetivo maior de Josué era conquistar a terra de Jericó e exterminar seus habitantes, nem que para isto tenha que dizer que Deus ordenou a matança!

No entanto, os teólogos que buscam defender a integridade total da Bíblia afirma que as crianças foram poupadas de um futuro ruim já que quando elas morrem, vão direto para o céu, como anjinhos fofinhos… Lindo! Então façamos um favor à humanidade e matemos todas as crianças! E quanto às mulheres, idosos e animais? Ah, morreram porque Deus executou seu julgamento sobre os pecados deles. Muito bem, e se eu dissesse que Deus me ordenou a matar toda a humanidade por causa dos pecados e crueldades da mesma?

O que estou querendo dizer até aqui é que nossa visão acerca da Bíblia  e de Deus foi muito influenciada pela visão deturpada da sociedade judaica sobre o que seja Deus e pelos impérios que nos forneceram as doutrinas que adotamos hoje. Ao adotarmos a Bíblia como infalível e inerrante, estaremos nos submetendo às manipulações decorrentes das forças culturais destes povos, e consequentemente, concordamos com as crueldades cometidas por estes em nome de sua imagem de Deus.

Continua…

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  1. 03/01/2012 às 10:14

    CISÕES…
    Em todas as doutrinas religiosas existem desacordos, e nem mesmo a Bíblia está livre…

    CISÕES BÍBLICAS

    Quando Jesus recomendou: Examinem as Escrituras porque julgais nela ter a vida eterna, e elas testificam de mim… Jesus não foi intolerante como muitos leitores do evangelismo atual são, pois os mesmos afirmam: A Bíblia é a única palavra de Deus sem desacertos… Jesus recomendou sabiamente EXAMINAR, ou seja, ANALISAR… E nessa análise nem tudo que reza na parte do Velho Testamento da Bíblia aplica-se moralmente para o estado social do homem moderno, muitas coisas são ensinamentos JÁ ULTRAPASSADOS, exemplos:

    Quem trabalhar no sábado será morto (Êxodo 35. 2)
    Quando o homem morrer sem deixar descendência, seu irmão deve se casar com a viúva (Deuteronômio 25. 5)
    Os filhos desobedientes aos pais…. e viciosos… devem ser apedrejados até a morte (Deuteronômio 21. 18 a 21)
    Selecionar os melhores animais para os sacrificarem em oferenda à Divindade para obter mercê da culpa pessoal (Levítico 5. 1 a 10), (práticas religiosas do Velho Testamento semelhantes aos cultos africanos, aos espíritos dos antepassados)
    É proibido comer carne de porco…. (Levítico 11. 05 a 07)
    O homossexualismo será punido com a morte (Levítico 20. 13)
    Relacionar-se sexualmente com uma mulher menstruada, o casal será expulso da comunidade (Levítico 20. 18)
    Os adultérios serão punidos com a morte (Deuteronômio 20. 10)
    Quem Blasfemar o nome do Senhor será punido com a pena de morte (Levítico 24. 16)
    Se um animal habituar-se a atacar alguém o ferindo de morte, e seu dono é conhecedor deste fato e não o guardou, o animal será morto apedrejado e também o seu dono morrerá com ele (Êxodo 21. 28 a 29)
    O homem que desviar os recursos dos dízimos consagrados no Altar para obra assistencial será punido com a pena de morte (Levítico 27. 28 a 29)

    Falou o Senhor a Moisés: Armem-se alguns de vós para a guerra, e vinga os filhos de Israel dos midianitas, matem A TODOS: homens, mulheres e crianças… POREM guardem as meninas virgens para vós (Números 31. 1 a 18). EXEGESE FORÇADA É ENGOLIR QUE ESTE ENSINAMENTO FLUÍU DA MENTE PURA DE DEUS, O PAI DAS LUZES

    Intensivo de Difusão Espiritualidade
    http://vozqclamabr.blogspot.com/

  2. Daniel Serafim
    15/02/2012 às 22:10

    !!!

  3. Vinícius Surkamp
    11/05/2014 às 0:00

    Ótimo texto. Quando fiquei sabendo daquele linchamento da mulher inocente no Guarujá, me lembrei do mesmo e de “Morte ao Relativismo Temporal”. As pessoas que lincharam a mulher fizeram a mesma coisa que aqueles que apedrejaram até a morte o homem flagrado catando lenha no sábado. Uma barbárie injustificável. Por que temos a cara-de-pau de usarmos dois pesos e duas medidas, frente à duas atitudes de mesma natureza? Alguns usam o argumento: “Tem que ler com o Espírito Santo para entender essas passagens.”! Sim, tem que ler com o Espírito Santo para entendê-las, e perceber que isso não é coisa de Deus, o Qual não é e nem nunca foi favorável à barbárie e a hipocrisia!!

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