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VOLTAIRE, BAKUNIN, DOSTOIEVSKY E JESUS


Para Voltaire, o que chamamos de Deus é tão bom que se Ele não existisse deveria ser inventado. Contrariando o nosso célebre filósofo francês temos o militante libertário russo Mikhail Bakunin, o qual entre tantos pensamentos destaca-se a interessante ideia de que se Deus existe, deve ser abolido, posto que, segundo ele, a divina existência implicaria necessariamente na perda do livre-arbítrio do homem. Outro sábio russo, Fiodor Dostoievsky, resolve apelar e constrói a argumentação incessantemente ignorada por meros mortais como eu e você de que se Deus não existe, então tudo é liberado.

Toda a discussão acerca da existência de Deus, portanto, implica na eterna discussão acerca da liberdade. Entretanto, o homem ainda não chegou a um consenso sobre o que vem a ser a liberdade, o que torna tais discussões inerentemente inúteis.

Aparentemente porém, Jesus vem tentar demonstrar o pior de todos os pensamentos filosóficos: de que Deus existe e ao mesmo tempo quer deixar de existir. Como? Não seria isso a mais plena contradição? Se olharmos para a maior de todas as transgressões da história, isto é, a criação do homem, veremos que ao sermos criados Deus se preocupou em fazer um backup de si mesmo, afim de experimentar a dependência em relação ao outro. A relação que estabelece Jesus entre Deus e o homem não vem de preceitos religiosos de adoração à divindade, mas do pressuposto de que a divindade está nitidamente representada no outro. Daí provém a argumentação formulada por João de que se amamos a Deus, então necessariamente amamos ao próximo e caso contrário, somos mentirosos.

Assim sendo, a síntese do pensamento de Jesus é esta: Deus não quer ser adorado, louvado ou tratado como rei, porque se assim fosse, o próprio Deus já teria destruído a humanidade inteira já que ela não obedece aos seus mandamentos. Para Jesus, Deus não é uma personificação vingativa como supunham os judeus e muito menos um Deus egoísta que fica sentado num trono de ouro esperando que os homens o louvem e o sirvam. Isto é coisa de deuses mesquinhos, competitivos e inventados à imagem do homem, tais como Zeus, Odin, Hórus, Baal, Shiva etc. Jesus quer que Deus pareça algo tão natural na vida humana através da prática do amor ao próximo que acabemos por esquecer que Ele existe.

Deus quer que o homem o reconheça no próximo e caminhe com ele no caminho do amor, um caminho que não conhece nada além da submissão mútua.

E, acredite, não há liberdade maior do que esta.

Renato A. O. de Andrade

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  1. Peter
    08/05/2011 às 7:31

    Muito bonita a conclusão. “Jesus quer que Deus pareça algo tão natural na vida humana através da prática do amor ao próximo que acabemos por esquecer que Ele existe.”
    Essa construção é o desafio para a raça humana. Não haverá reino de Deus na terra sem esse comprometimento verdadeiro.
    Escreva mais um pouco sobre isto!

  2. Felipe
    09/11/2011 às 13:41

    Faz muito sentido. Muito sentido mesmo.

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