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NÃO SE CONFORME COM O MUNDO


Por Renatim

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Se há um mal a ser chamado de “mal do século”, este é sem dúvida o conformismo. As pessoas acostumaram-se a se conformar com o sistema vigente desde que a humanidade se conhece como tal. O sistema, seja qual for (feudalismo, mercantilismo, capitalismo, comunismo, fascismo ou quaisquer outros -ismos) sempre conseguiu manter as massas populacionais longe dos holofotes das revoluções da consciência humana. Entretanto, chama-me atenção a particularidade que o sistema capitalista tem em relação aos demais sistemas mencionados, um atrativo que facilita sua aceitação e o conformismo do grande público: a possibilidade, mesmo que remota, de mobilização de classe. Isto quer dizer basicamente que, numa sociedade capitalista um indivíduo de classe inferior é constantemente tentado com a promessa de que, se ele tiver sorte e performance, ele poderá ascender as escadas da pirâmide socioeconômica e se tornar mais um dos sustentáculos do sistema. Tal tentação nos é constantemente bombardeada pelos meios midiáticos de massa, mais expressivamente pela televisão. O forte apelo televisivo ao consumismo e a projeção da imagem de um “modelo” de vida (as ditas “celebridades”) sobre o indivíduo faz com que este rapidamente perca sua individualidade e aceite uniformizar-se com o que lhe é imposto proposto pela mídia como o modo ideal de viver. Como consequência dessa uniformidade acaba-se gerando o conformismo, motivado pela retórica positivista diária dos que detém o poder: “você pode ser como eu!”.

O atrativo do conformismo portanto, é que uma pessoa simplesmente aceita sua condição social (e a dos outros) na esperança de mudar de vida algum dia. Além disso, conformar-se com o sistema gera uma sensação de segurança, posto que o “Big Brother” não o olhará como um possível dissidente que poderá coloca-lo em perigo. Mas a maior vantagem do conformismo é de que uma pessoa pode se isentar de quaisquer responsabilidades pela condição social da outra. Na retórica do capitalismo, se uma pessoa nasceu numa família rica e outra numa família pobre, isso é chamado de sorte (ou azar), ou resumido simplesmente na palavra “destino”. Consequentemente, o conformismo gera naturalmente o egoísmo, isto é, a plena incapacidade de se projetar em outra pessoa, ou até mesmo de se imaginar numa condição inferior. O egoísmo é a vivência de um indivíduo de si mesmo para si mesmo. Quando questionado sobre as outras pessoas, o egoísta em geral se resume a dizer algo como “se essa pessoa não teve uma oportunidade na vida, o problema é dela”. Mas essa pessoa ignora ou finge ignorar que a falta de oportunidade é um distúrbio artificialmente criado para manter o estabilishment em funcionamento e portanto, para suprir seu próprio egoísmo.

O culto ao egocentrismo por sua vez, gera a exploração, que é o ato de usar outra pessoa para benefício próprio, sem contanto dar-lhe algum tipo de retribuição justa. E isso por sinal é a mola propulsora do capitalismo, visto que toda a base do sistema está no lucro e especialmente na prática que podemos denominar “vício no lucro”. E lucro é em sua essência, um ato de exploração, visto que ao se lucrar com alguma coisa, uma pessoa sempre terá mais do que a outra. No capitalismo porém, o ato de lucrar acompanha uma série de fatores. É necessário enfatizar primeiramente que só existem pessoas ricas porque existem pessoas pobres, porque caso assim não fosse tais comparações seriam fatalmente falaciosas. Nesse sentido, temos a pobreza como algo intrinsecamente artificial. Se a pobreza é artificialmente produzida, então há solução. Logo, vem uma pergunta: porque então há pobres desde que a civilização se conhece como tal? Pelo desejo de um ser humano se tornar maior do que o outro, o desejo de superioridade, que tem suas raízes do egoísmo. Dizia Mahatma Gandhi que “a pobreza é o pior tipo de violência que existe”. Para Gandhi a pobreza era resultado da violação de direitos fundamentais do ser humano e do principal direito, o da igualdade. Hoje chamamos isso de Violência Estrutural. Está cientificamente comprovado que a Violência Estrutural mata muito mais pessoas do que quaisquer guerras do mundo. De fato, quando há alguma inovação tecnológica em qualquer área do conhecimento científico, os pobres são (e quando os são) os últimos a serem beneficiados. Em contraste, quando há uma catástrofe natural ou uma guerra, eles são os primeiros a receberem os efeitos nocivos… Falta de oportunidade? Sorte ou azar? Ou seria isso tudo artificialmente criado e mantido por uma elite manipuladora?

Por falar em manipulação, é sabido que os veículos de comunicação servem aos donos do dinheiro. E para o estabilshment continuar funcionando, é necessário o uso massivo desses meios para os interesses individuais daqueles que os controlam. O linguista e filósofo norte-americano Noam Chomsky, professor do MIT, escreve que para o domínio de poucos se concretizar é necessário que se mantenha a grande massa entretida, afim de não terem tempo para refletir e questionar sua própria realidade. Isso historicamente é semelhante ao que os romanos chamavam de “Política do Pão e Circo”, cujo objetivo era deixar o povo romano alheio às decisões políticas que eram tomadas pelas ditas autoridades. Portanto, o papel fundamental dos meios de comunicação em geral não é o de informar e sim de distrair. Enquanto o povo assiste programações de baixo nível moral como o Big Brother Brasil, a política mundial se desenrola nas escuras. Os governantes planejam guerras, subornos, corrompem e são corrompidos, aumentam taxas a níveis exorbitantes… E nos conformamos com isso! Somos levados a crer que ao votarmos em alguém, estamos transferindo a responsabilidade que nos cabe para as pessoas que elegemos e portanto cobramos (e quando cobramos) deles esta responsabilidade que primeiramente nos pertence.

O que podemos fazer então? Como minimizar os índices de pobreza? Escolher governantes melhores? Instituir um sistema socialista? A história é testemunha, nada disso funciona enquanto estivermos escravizados dentro de um sistema monetário. Educação? Nosso sistema educacional visa apenas preparar uma pessoa para o mercado de trabalho, aquela longa história de “ser alguém na vida”. Educação funciona, mas no atual paradigma é somente mais um instrumento de controle social, posto que não incentiva o aluno a questionar o que ele está aprendendo e assim capacitá-lo a desenvolver novas alternativas, ao contrário, nossa educação é rigidamente controlada de tal modo a nos tornarmos meros autômatos obedientes ao que é socialmente estabelecido. Para efetivamente fazermos uma mudança social, é necessário que cada pessoa se torne um agente ativo da mudança. Que cada pessoa enxergue a insanidade das guerras, da fome, da violência, da imposição, do dinheiro. Que os indivíduos passem a questionar sua própria realidade, e não se conformar com ela. Temos que nos conscientizar que na ótica do verdadeiro amor, o problema do outro é um problema nosso e nos empenharmos categoricamente em tentar solucioná-lo da maneira mais eficaz.

Se quisermos ver portanto um mundo melhor, temos que trazer para nossa mente a revolução radical.

“Seja a mudança que deseja ver no mundo” – dizia Gandhi.

Ou então, caminharemos a passos largos rumo a autodestruição.

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