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MORTE AO RELATIVISMO TEMPORAL


Por Renatim

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Se no âmbito das ideologias pragmáticas existe algo pior do que o relativismo cultural, este é sem sombra de dúvidas, o que eu chamaria de relativismo temporal. Nenhum outro tipo de relativismo é tão cruel e desumano quanto a ideia de que um procedimento explorador e degradante por parte de alguma personalidade histórica de elevada importância possa ser justificado mediante argumentos tão desprezíveis quanto “naquele tempo tinha que ser assim”.

A falácia da argumentação consiste em que, sendo um determinado ato promovido por algum ser humano em uma dada época da história e sendo este ato qualquer atentado à vida de uma ou mais pessoas ou à individualidade destas, tal ato pode ser moralmente justificado com base na evolução da consciência humana e por isso não podemos julgar tais atos do passado porque o povo daquela época não era tão “civilizado” como nós e agiam de maneira selvagem e animalesca com seus semelhantes. E curiosamente, as Escrituras são o alvo principal deste tipo de raciocínio. Afim de defender a integridade da narrativa bíblica e principalmente a de seus protagonistas, nos é mais cômodo apelar ao relativismo  temporal do que assumir uma postura crítica acerca dos referidos personagens. Chegamos a um nível de hipocrisia tal, que condenamos um Hitler que trucidou milhões com seu regime nazista e louvamos a Moisés, Arão e os sacerdotes de Israel que igualmente trucidaram milhares de pessoas em nome de uma Teocracia Judaica. E porque isso? Pela opinião dos defensores do relativismo temporal, naquela época não havia outro remédio para o povo a não ser a violência da Lei. Ou seja, por causa da falta de inteligência das massas é justificável por exemplo, que os sacerdotes judeus façam uma lei e a rotulam de divina, dizendo que se alguém adorasse um outro deus senão YHWH, que seja apedrejado até a morte, afinal, como o povo da época eram ignorantes quanto ao Deus verdadeiro, tinham que ser disciplinados à força. Mas quando se coloca Hitler no caminho, há uma grande indignação, porque os alemães seguidores dele sabiam o que estavam fazendo com os indesejáveis da sociedade nazi!

Se o ser humano foi criado por Deus, sua consciência  já estava pronta. Se a origem do homem foi através da evolução como quer a ciência materialista, permanecemos no mesmo, posto que não enxergo nenhuma evolução a não ser a da decadência.

O relativismo temporal portanto, pode ser usado para justificar uma série de outras ações igualmente irremediáveis. Justifica-se a escravidão, a servidão forçada, a fome, o Estado, a ditadura… Até hoje por exemplo, se utiliza da passagem de Abraão voltando da guerra como argumento para se justificar o apoio de uma entidade dita cristã a um conflito armado. A lógica é simples: sendo Abraão escolhido de Deus e abençoado na guerra, logo eu posso travar uma guerra e pedir a proteção divina. Se alguma boa alma (mas ignorante de certa forma) usa do relativismo temporal dizendo que naquela época Abraão pode fazer isso e que isso não vale mais para os nossos dias, então aquele que almeja a guerra certamente dirá “Então, naquela época foi necessário e hoje também é necessário guerrear e seremos abençoados da mesma maneira que Abraão”. Temos portanto, um argumento, um contra-argumento e por fim a partir do contra-argumento a validação do primeiro argumento. Mas não se questiona a validade do primeiro argumento, isto é, se de fato Abraão foi à uma guerra e com que motivação, se ele realmente foi abençoado por Deus e se ainda tudo isso nos serve de justificativa para as ações a serem tomadas nos dias atuais.

Não só para justificar argumentos  tendenciosos, como também o relativismo temporal serve para retirar quaisquer culpas de nossos ídolos. Caso clássico dentro das igrejas reformadas é a condenação à fogueira de Miguel Servet por calvinistas em Genebra, e apoiado fortemente por João Calvino. Os defensores de Calvino utilizam o relativismo temporal para justificar o ato do seu deus ao argumentarem que na época de Calvino havia um forte movimento herético dentro do protestantismo e como Servet era um herege de carteirinha (só o fato de negar a Santíssima Trindade já lhes bastava) este deveria ser eliminado para não contaminar o povo. E sugerem também que até mesmo Lutero (outro deus dos reformados) apoiaria a condenação de Servet para manter a doutrina pura e santa. Mas seja qual for a motivação, naquela época era necessário que Genebra que se acendesse fogueiras assim como a Igreja Católica fazia. Portanto, a pretensão de argumentos desse tipo baseia-se na ideia da necessidade. É necessário que se mate tantos milhões, que se faça tantas guerras, que mais um monte de pessoas morram de fome… tudo isso para justificar a atitude um personagem pomposo!

Não será mais simples e honesto admitir que tal personagem errou? Ao invés de ficarmos tentando justificar os atos abusivos de Moisés, Arão, Davi, Paulo e quaisquer outros, e termos a cara-de-pau de condenarmos ao inferno duplamente eterno pessoas como Hitler, Stalin, Mussolini e Pinochet? Porque por exemplo se justifica uns e condena outros se ambos fizeram a mesma coisa? Só porque um é “sagrado”, “santo” e o outro não? O erro do santo é tão insignificante se comparado ao erro do perverso?

Evolução da consciência? Ah… sugiro então que voltemos todos à Idade da Pedra. Lá pelo menos não tínhamos ética e moral, portanto, não éramos civilizados e tão hipócritas como somos hoje…

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