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ACERCA DA LIDERANÇA


Renato A. O. de Andrade

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Liderança… nunca esta palavra teve tanta importância como nos dias atuais, e diga-se de passagem, virou a palavra primordial nos meios eclesiásticos. Líder de jovens, líder de mulheres, líder espiritual, enfim, o currículo de um líder hoje pode ser bastante invejável. Creio que já se escreveu besteira demais nos livros sobre liderança, mesmo nos meios empresariais, nos quais a liderança é vista como sinônimo de poder ou de status. Aliás, não só nas empresas e nas igrejas, como também a ideia de liderança atual está fundamentada no que chamamos de Estado e governo.

Entretanto, como sou um não-conformista, não sou muito favorável a essas definições sociais que deveras foram radicalmente modificadas ao longo dos milênios de humanidade, logo, é preciso buscar senão o verdadeiro significado da liderança, ao menos seu princípio deontológico.

A LIDERANÇA ENTENDIDA PELA SOCIEDADE ATUAL

Nos círculos acadêmicos, temos visto diversas teorias acerca da liderança. Mas seja elas quais forem, a realidade é essa: para a maioria da sociedade, liderança é, indiscutivelmente, o sinônimo de exercício do poder. Assim para a maioria de nós pobres mortais, é razoável pensar que o líder é uma autoridade, pior ainda se for uma “autoridade eclesiástica”. Este último constituiu-se numa forma inquestionável e portanto intocável de liderança. Em todo caso, tal é nossa predisposição a aceitar que pessoas nos governem e tenham algum tipo de poder ou influência sobre nós, que simplesmente nos negamos a questionar um poder que nós próprios damos a essa pessoa. Portanto, a liderança é basicamente, transferência de responsabilidade. A verdade nua e crua é esta: não queremos nos responsabilizar para mudar o mundo e melhorar a sociedade ou termos um desenvolvimento sustentável de nossa espiritualidade, então simplesmente transferimos essa responsabilidade para outras pessoas e aceitamos que elas nos abusem, porque este é afinal, o preço a se pagar.

O fato é que, juntamente com a figura de liderança, foi-nos passado também a figura da imposição. Aparentemente ficamos acostumados a ver líderes abusando de tal maneira de seu poder, que nos submetemos a quaisquer imposições que estes nos colocam afim de manter-se no poder. E porque nos acostumamos? Simples, porque nos acostumamos ao medo. Medo de perder nossas vidas. Medo de perder nossa família, nossa casa, nosso dinheiro, nosso trabalho. O fator medo gera uma série de recursos a serem explorados por aqueles que confiávamos para nos liderar.

Tal distorção está em todos os setores onde há presumivelmente uma necessidade de liderança  ou onde os que exercem algum tipo de poder são chamados de líderes. Nos governos a questão é escancarada. Damos tanto poder ao governo por meio de um sistema ilusório chamado de voto, que esquecemos que o governo está ali para servir à população e não o contrário, como acontece hoje e talvez sempre aconteceu desde que um ser humano é colocado acima de outro. Daí, se alguém vai contra a forma de governo atual, é rapidamente silenciado. E o governo ainda diz: escreva para seu deputado, mande um email aos senadores, agende uma conversa com o presidente da república, cobre do governo transparência, moralidade e tudo o mais. Deus, quanta hipocrisia!

No meio religioso, não é nada diferente. Pastores usam e abusam do título de “autoridade espiritual” (que aliás não existe em LUGAR NENHUM da Bíblia). Anseiam por parecer inquestionáveis assim como se diziam os sacerdotes e reis “ungidos” do Antigo Testamento… Em geral, lançam maldições sobre aqueles que ousam questionar a “autoridade pastoral”, a “liderança espiritual”, o “ungido de deus”, e qualquer outra abobrinha que inventarem como mecanismo de autodefesa e egocentrismo. Ao impor suas convicções teológicas ou usar a tática do medo em suas pobres ovelhas (“não toqueis nos ungidos do senhor”), estes pastores tão somente estão querendo manter o controle. Estão portanto, virando traficantes da fé e mercadores de escravos religiosos. Mas dizem seus defensores: “este homem estudou quatro anos de teologia e foi consagrado pastor, como você pode falar uma coisa dessas? “. Sim, sim, Hitler também estudou e foi consagrado democraticamente a presidente da Alemanha… bem exemplar por sinal.

Encontramos nas famílias um grande problema de liderança e abuso de autoridade. O homem (pai) acha que por ser homem tem direito à propriedade acerca da mulher e de seus filhos, e portanto, os trata como mera mercadoria. Acham que podem agir com violência diante da esposa quando é “desrespeitado” em sua autoridade, porque afinal, a mulher deve ser submissa ao homem, custe o qaue custar…

Isto tudo só ocorre porque confundimos liderar com chefiar. Portanto, é necessário revermos o que de fato consiste em liderança na visão de Jesus.

A LIDERANÇA SEGUNDO JESUS

Vocês sabem: aqueles que se dizem governadores das nações têm poder sobre elas, e os seus dirigentes têm autoridade sobre elas. Mas, entre vocês não deverá ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servidor de vocês, e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos.” – Marcos 10:43-45

Tenho dito que liderar é guiar. O líder aponta o caminho a ser tomado e guia a todos aqueles que voluntariamente desejam segui-lo neste caminho. Assim, liderança não tem nenhum sentido de poder ou autoridade como temos aprendido. Liderança tem a ver com responsabilidade.

Na visão de Jesus isso é muito mais evidente. Um guia é um servo que conhece um determinado caminho ou que se arrisca a ir por este caminho, assumindo a responsabilidade pelos outros que está levando consigo. O papel do líder, portanto, deve ser entendido a partir da ótica do serviço.

A visão de Jesus é fantástica: uma liderança sem uso do pode, da autoridade,  da força, do medo e do terror psicológico. Para Jesus portanto, a liderança é anarquista, isto é, sem imposições. Isto muda tudo. Tudinho tudinho. O líder deve ser servo de todos. Ou seja, totalmente o contrário daquilo que estamos acostumados a pensar sobre o tema.

Servir implica em abrir mão de sua vontade em favor de outrem.

Amar é servir.

Portanto, a verdadeira liderança deve ser feita através do amor.

Um pai deve liderar sua família servindo-a. Isto significa compartilhar as decisões a serem tomadas, ser atencioso à sua esposa e procurar o convívio com seus filhos, sempre corrigindo-os quando necessário. Um servo não impõe sua vontade, portanto um pai nunca deve impor sua vontade, mas abrir mão dela quando for preciso e expor aquilo que está em sua mente, isto é, como eu havia dito, compartilhar as decisões a serem tomadas. Com isto, sua esposa verá que este a ama verdadeiramente e se submeterá a ele automaticamente, e seus filhos o respeitarão. Discussões entre marido e esposa eventualmente vão surgir, mas no caso da liderança através do amor elas são resolvidas com paciência, paz e tranquilidade, nunca usando a violência contra ela, seja verbal ou física, as vezes até mesmo cedendo de sua posição em favor da esposa.  Enfim, se um pai lidera através do amor, ele deve principalmente, acompanhar sua família no caminho, dando apoio para os filhos, sustento emocional e material para sua mulher e guiando-os na descoberta da espiritualidade, na busca pelos ideais do Reino de Deus, o qual ele faz parte.

Vejamos o exemplo de Jesus. As pessoas o seguiam voluntariamente, porque ele demonstrava não ter nada para lhes oferecer a não ser o amor. E Jesus liderava as pessoas através do amor, motivando-as ao arrependimento e à mudança de atitudes. Obviamente. Havia pessoas que estavam o seguindo com segundas intenções, mas estas não foram muito longe. O diferencial de Cristo em relação a todos os outros líderes é que ele nunca se colocou como líder… Ele nunca disse “eu tenho autoridade”, “eu sou o Rei e vocês deverão me obedecer”, “eu sou ungido do Senhor” e outras bobagens que as ditas autoridades colocam em nossas cabeças. Jesus demonstrava a autoridade, a responsabilidade, a liderança através do exemplo: o que vale para todos nós, também vale para ele.

Seguindo a visão de Cristo, não há liderança espiritual, porque não existe mais sacerdócio. Também não existe mais governo entre os herdeiros do Reino. Não há mais poder, medo, terror. Não há poder, porque não há em quem mandar ou ser mandado. Não há medo, porque não se tem motivos para causar medo ou ter medo. Não há terror porque não há imposição e sim o voluntariado.

Há tão somente a anarquia do amor.

 

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  1. Peter A
    25/12/2010 às 10:06

    Um trabalho bem feito Renato, parabens! vou tirar tempo para tentar traduzir ao espanhol, Mas seria bem mais interesante fazerlo para o inglês, já pensou nesse outro publico que ignora portugues e espanhol?

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