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A IRRACIONALIDADE DA GUERRA


Eis uma grande e bela reflexão do escritor francês Guy de Maupassan acerca da irracionalidade da guerra. Este trecho é citado pelo escritor russo Leon Tolstoi em seu livro “O Reino de Deus está em vós”. Que isso sirva de alerta para nós…

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Quando penso somente nesta palavra guerra, me assalta um desânimo, como se me falassem de bruxaria, de inquisição, de algo longínquo, fundo, abominável, monstruoso, contra a natureza.

Quando se fala de antropófagos, sorrimos com orgulho, proclamando a nossa superioridade sobre aqueles selvagens. Quais são os selvagens, os verdadeiros selvagens? Aqueles que se batem para comer os vencidos ou aqueles que se batem para matar, com o único intuito de matar?

Os soldados de infantaria que correm ao longe estão destinados à morte, como o rebanho de carneiros que um açougueiro vislumbra diante de si na estrada. Cairão numa planície, com a cabeça quebrada por um golpe de espada ou com o peito perfurado por uma bala; e são jovens que poderiam trabalhar, produzir, ser úteis. Seus pais são velhos e pobres, e suas mães, que durante vinte anos os amaram, adoraram como adoram as mães, saberão dentro de seis meses, ou talvez de um ano, que seu filho, o menino, o menino grande educado com tanto sacrifício, com tanto dinheiro, com tanto amor, foi jogado numa fossa, como um cachorro, depois de ser estripado por um tiro de canhão e pisoteado, amassado, moído pelas cargas de cavalaria. Por que mataram seu filhinho, seu lindo filhinho, sua única esperança, seu orgulho, sua vida? Ela não sabe. Sim, por quê?

A guerra!… lutar!… degolar!… massacrar os homens!… e temos hoje, em nosso tempo, com a nossa civilização, com a vastidão da ciência e com o grau de filosofia ao qual o ser humano acredita haver chegado, escolas onde se aprende a matar, e matar a distância, com perfeição, muita gente ao mesmo tempo, a matar pobres diabos de homens inocentes, arrimos de família e sem antecedentes criminais.

E o mais assombroso é que o povo não se volte contra os governos. Que diferença há, então, entre as monarquias e as repúblicas?

O mais assombroso é que a sociedade inteira não se rebele contra esta palavra guerra.

Ah! Viveremos sempre sob o peso dos velhos e odiosos costumes dos preconceitos criminosos, das idéias ferozes dos nossos antepassados bárbaros, porque somos bestas e continuaremos bestas que o instinto domina e nada muda. Talvez não houvesse sido condenado ao desterro um outro que não fosse Victor Hugo, quando lançou aquele grito de libertação e de verdade? Hoje, a força chama-se violência e começa a ser julgada; a guerra é posta em cheque. A civilização, por denúncia do gênero humano, instrui o processo e reúne a grande documentação criminal dos conquistadores e dos capitães. Os povos começam a compreender que o engrandecimento criminal de um delito não pode ser a diminuição; que se o ato de matar é um delito, matar muito não pode ser uma circunstância atenuante; que se o ato de roubar é uma vergonha, invadir não pode ser uma glória! Ah! proclamemos estas verdades absolutas, desonremos a guerra!

Cóleras vãs, ira de poeta. A guerra é mais venerada do que nunca. Um hábil artista neste setor, um massacrador talentoso, o senhor Moltke, respondeu um dia, aos delegados da paz, com estas estranhas palavras: “A guerra é santa, instituiu-a Deus; é uma das leis sagradas do mundo; mantém nos homens todos os grandes e nobres sentimentos: a honra, o desinteresse, a virtude, a coragem, e impede-os, numa palavra, de cair no mais horrível materialismo.”

Assim, reunir-se em rebanhos de quatrocentos mil homens, marchar dia e noite sem repouso, em nada pensar, nada estudar, nada aprender, nada ler, a ninguém ser útil, dormir emporcalhados na lama, viver como brutos em contínuo hebetismo, saquear cidades, incendiar vilarejos, arruinar povos, bater-se então com outra aglomeração de carne humana, cair sobre ela, fazer lagos de sangue, planícies de carne massacrada misturada à terra enlameada e avermelhada por pilhas de cadáveres; ter arrancados braços ou pernas, despedaçado o cérebro sem proveito para ninguém, ou explodir num campo enquanto seus velhos pais, sua mulher e seus filhos morrem de fome: eis o que se chama não cair no mais horrível materialismo!

Os homens de guerra são o flagelo do mundo. Lutamos contra a natureza e a ignorância, contra obstáculos de toda espécie, para tornar menos dura a nossa mísera vida. Existem homens, benfeitores, cientistas, que consomem sua existência a trabalhar, a procurar o que pode ajudar, o que pode socorrer, o que pode servir de alívio a seus irmãos. Continuamente imersos em sua útil tarefa, acumulam descobertas, ampliam os horizontes da mente humana, enriquecem o património da Ciência, dedicam à sua pátria, a cada dia, bem-estar, abundância, força.

Vem a guerra. Em seis meses, os generais destruíram vinte anos de esforços, paciência e génio.

Eis o que se chama não cair no mais horrível materialismo.

Nós vimos a guerra. Vimos os homens, embrutecidos, fora de si, matar por prazer, por terror, por bravata, por ostentação. Quando o direito não mais existe, quando a lei está morta, quando desaparece qualquer noção de justiça, vimos fuzilar inocentes encontrados pela estrada e transformados em suspeitos porque tinham medo. Vimos matar cães acorrentados defronte às portas de seus patrões, para experimentar revólveres novos; vimos metralhar por prazer vacas deitadas num campo, sem qualquer razão, para tirar as balas dos fuzis, assim, de brincadeira.

Eis o que se chama não cair no mais horrível materialismo.

Entrar numa aldeia, trucidar o homem que defende sua casa, porque veste uma camisa e não traz na cabeça um quepe, queimar habitações de miseráveis que não têm mais pão, arrebentar móveis, roubar outros, beber o vinho encontrado nas cantinas, violar as mulheres encontradas nas estradas, queimar milhares de liras e deixar atrás de si a miséria e a cólera.

Eis o que sé chama não cair no mais horrível materialismo.

O que fizeram então para dar provas de um pouco de inteligência os homens de guerra? Nada. O que inventaram? Canhões e fuzis. Eis tudo.

O inventor do carrinho de mão não fez mais pelo homem com esta simples e prática idéia de aplicar uma roda a dois bastões do que o inventor das modernas fortificações?

O que resta da Grécia? Livros, mármores. Será grande, talvez, porque venceu? Ou porque produziu?

Foi a invasão dos persas o que os impediu de cair no mais horrível materialismo?

Foram as invasões dos bárbaros que salvaram Roma e a regeneraram? Napoleão I continuou, talvez, o grande movimento intelectual iniciado pelos filósofos no fim do século passado?

Pois bem, já que os governos desta forma se atribuem o direito de morte sobre os povos, não é de admirar que os povos se atribuam o direito de morte sobre os governos.

Eles defendem-se. Têm razão. Ninguém tem o direito absoluto de governar os outros. Não se pode fazê-lo senão para o bem daqueles que dirigem.

Qualquer governo tem o dever de evitar a guerra, como um capitão de navio tem o de evitar o naufrágio.

Quando um capitão perde sua embarcação, é julgado e condenado, se reconhecido culpado de negligência ou mesmo de incapacidade.

Por que não se deveria julgar um governo após cada guerra declarada?

Se os povos compreendessem isto, se julgassem por si mesmos os poderes assassinos, se não admitissem deixar morrer sem razão, se empregassem suas armas contra aqueles de quem as receberam para matar, nesse dia a guerra estaria morta... Mas esse dia nunca chegará…

 

Guy de Maupassan

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Categorias:Reflexões
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