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A FARSA DA MODERNIDADE


Por Renato A. O. de Andrade

 

“Preocupa-me a violência da modernidade. Mas me preocupa mais ainda, a modernidade da violência, que utiliza as armas desenvolvidas pela injustiça social e pela desagregação familiar, com a finalidade de atingir o corpo, deixar marcas na alma, e feridas no coração. Violência que viola os direitos do SER.”

Antonio Luiz Macêdo

Estamos no final do ano de 2010, numa época em que o fenômeno da modernidade está em seu auge. Segundo os ideais da modernidade, as pessoas são muito mais felizes do que antes, porque há mais saúde, educação, segurança, entretenimento e liberdade. As pessoas em geral amam a modernidade por causa dessas coisas, pelo conforto que ela traz e pela suposta felicidade decorrente disso.

Disse “suposta felicidade”?

Já dizia Aldous Huxley que o principal objetivo dos Estados no futuro seria a preocupação com o problema da felicidade: o governo faria de tudo para que o indivíduo se tornasse feliz, ao menos na visão de felicidade do sistema.  Isto porém, geraria escravos ideológicos do sistema, porque as pessoas passariam a ficar tão mecânicas que não parariam para pensar um minuto sequer sobre o que estão fazendo. Huxley chama isso de verdadeira ditadura, e eis ela, a ditadura da “modernidade”.

A modernidade é primariamente, fruto do capitalismo que começou a se desenvolver durante a Segunda Revolução Industrial nos Estados Unidos. Depois das máquinas à vapor e os teares dos ingleses na Primeira Revolução, onde  a vida humana já estava sendo mecanizada, vieram os automóveis, aviões e o desenvolvimento da eletrônica, do rádio e da energia elétrica. Tudo isso porém, só foi possível graças à exploração de inúmeros trabalhadores, muitos dos quais pagaram com a vida pelo desenvolvimento do sistema.

O fato é que a modernidade tem criado cidadãos disfuncionais numa sociedade aparentemente funcional. Como Huxley previa, o cidadão comum passou a amar sua própria condição, o que o leva à alienação coletiva. O governo e os cientistas provocaram um estado em que a tecnologia causou uma dependência no ser humano de tal forma, que já não sabemos mais como vivermos sem as bugigangas dos tempos modernos. Por isso, costumamos agradecer ao governo e às empresas por terem criado a Internet e a televisão para enchermos nossas cabeças de lixo, enquanto milhões de pessoas estão sendo diariamente exploradas nos cantos mais remotos do planeta de forma selvagem e cruel pelo imperialismo. Afinal, pensamos, estes não tiveram a oportunidade que nós, pessoas da civilização moderna, usufruímos, tais como tratamentos de beleza, compras no Shopping Center ou pela internet, assistir aos jogos do Real Madrid pela TV, cultos em megaigrejas ou em réplicas modernas do Templo de Salomão, de jogar videogame, de cursar uma faculdade (senão, não vai ser “alguém na vida”), a investir pesado na bolsa de valores etc.  O que fazemos com estas pessoas? Marginalizamos ou deixemos de lado, “são uns coitadinhos que não tem oportunidade na vida e esperamos que alguém lhes dê alguma esmola ou um emprego numa mineradora na China. Preocupar-me com os índios, com os descendentes dos povos antigos que habitavam a América Central (maias e astecas) e na América do Sul (incas e índios brasileiros) muito antes da invasão portuguesa, espanhola e norteamericana? Que nada, isso é coisa de antropólogo, além disso eles são uns selvagens, devem se adequar à civilização moderna se quiserem sobreviver. Aliás, estamos até os ajudando, levando a inclusão digital e a nossa educação nas aldeias, portanto eles devem nos agradecer… Mineiros e operários de montadoras chinesas, estes sim devem agradecer aos empresários, pois lá a concorrência, é braba, portanto, quem não quer trabalhar é vagabundo, que se dane!”.

Esta é a situação e o estado da alienação produzida pela modernidade. Isto quando temos conhecimento dos problemas, porque na nossa atual educação nem isso acontece, porque criamos toda uma geração de estudantes disfuncionais, verdadeiros analfabetos sociais.  A educação brasileira se resume em duas coisas: futebol e camisinha. Futebol para tirar os meninos da rua e camisinha para os adolescentes e jovens evitarem a gravidez indesejada e DSTs. Que maravilha! Estamos ajudando a tirar os meninos da rua e a prevenir doenças em nossos pobres e ingênuos adolescentes!  Ah, sim, e para mostrar nossa generosidade, ainda colocamos máquinas de camisinha nas escolas para que os estudantes mais pobres não precisarem comprar os preservativos! Como o governo se preocupa com o povo! Enquanto isso, os estudantes não sabem nem sua própria língua… Claro, nossa saúde melhorou muito também, estamos promovendo todo um sistema de “saúde reprodutiva” (diga-se aborto) para as mulheres, afim de que elas possam decidir sobre seu próprio corpo. Já não estamos mais na Idade Média, agora as mulheres podem escolher o que bem  entender! Aleluias! Enquanto isso, milhares de mulheres são forçadas a abortarem e se submeterem a esterilizações na China e em outros países, muitas até mesmo sem saber, tomando substancias esterilizantes diabolicamente colocadas no leite, na água e nos alimentos pelo governo.

No âmbito da modernidade, temos as mais fascinantes pesquisas e descobertas científicas. Vamos à Lua, à Marte, e até mesmo ultrapassamos as fronteiras do sistema solar. Gastamos trilhões de dólares em desenvolvimento de uma máquina que criará buracos-negros microscópicos para que possamos estudar a origem do universo. Conseguimos enxergar tão pequeno quanto o tamanho de um quark, ou tão grande quanto uma galáxia à milhões de anos luz da Terra, mas curiosamente não conseguimos enxergar tão perto como a pessoa ao lado ou tão longe quanto se preocupar com os que sofrem nas garras do imperialismo capitalista. E dizemos que temos progredido muito! É incrível, gastasse bilhões para mandar uma sonda ao espaço, enquanto estes mesmos bilhões servem para matar a fome de pelo menos a África inteira, no entanto, obcecados pela modernidade preferimos enviar a sonda para que ela possa ficar mandando fotografias de um planeta que sequer vamos chegar a pisar um dia. E chamamos isso de… modernidade!

Além de criarmos uma geração de estudantes de nada, criamos uma geração que não sabe o que é um relacionamento humano. A proliferação e consequente ascensão das redes sociais na Internet e o conceito de Web 2.0 está fazendo com que muitos literalmente percam seu tempo em relacionamentos sem nexo e condenados ao fracasso. Orkut, Facebook e Twitter são coisas que deveriam vir com um manual de instruções de como serem utilizados corretamente, porque o que ocorre é justamente o contrário, as pessoas acabaram sendo dominadas pelas redes sociais. Na verdade o fenômeno não ;e um caso isolado das redes sociais, mas sim do conceito de Web 2.0. Ao tornarmos a Web mais dinâmica, possibilitou-se uma gama de abusos em tempo real.  Pessoas passam mais tempo na internet do que construindo amizades sólidas, homens casados passam o tempo vendo pornografia, quando deveriam estar se dedicando à esposa e aos seus filhos, jovens perdem o senso do estudo porque acham tudo pronto na web, enfim, a modernidade é tão espetacular que consegue ao mesmo tempo fazer duas coisas antagônicas: perder e ganhar tempo. Perde-se o tempo dedicado aos relacionamentos e passasse a ganhar tempo nas realizações de tarefas absolutamente secundárias e muitas vezes desnecessárias.

Engraçado, a modernidade é tão moderna que continuamos nas mesmas guerras de sempre. O que mudou? Apenas o poder destrutivo. Graças à modernidade é possível acabar com um continente inteiro com bombas atômicas, podemos queimar multidões com NAPALM, bombas de Hidrogênio ou até mesmo provocar terremotos com ondas HAARP. Formidável! Quanto mais moderno é o ser humano, mais bruto e irracional ele fica! Se antigamente dava-se valor ao casamento, hoje isso virou algo totalmente “fora de moda”, como se o casamento fosse moda! Se antigamente os pais eram respeitados, hoje “respeito” virou uma palavra suja e fadada ao esquecimento. Se antigamente a virgindade era extremamente honrada, hoje virou algo a ser jogado no lixo, porque “honra” é um conceito defasado e sujeito ao desprezo coletivo.  E ainda dizem que evoluímos muito, que não somos mais homens das cavernas, que temos mais civilização…

De fato, a eficácia do sistema atual é maior do que quaisquer outros anteriores. Isso porém só foi possível graças à mídia de massa, que faz seu papel como condicionadora social do povo. O documentário “Muito além do Cidadão Kane” nos mostra isso de modo real e assustador. O poder da mídia é tal, que passamos a acreditar em tudo o que se passa na TV. Se passou na TV, então é verdadeiro. Caso contrário, é apenas coisa de gente maluca que fica inventando boatos por aí. Acreditamos na mídia porque fomos condicionados a crer que as emissoras estão preocupadas em nos manter informados, quando na verdade o que mais ocorre é uma tática de desinformação. Se a TV diz que Hugo Chávez é ruim e Barack Obama é bom, é porque assim é. E ainda nos colocam imagens e mais imagens para provar isso, afinal, como diz o ditado uma imagem vale mais do que mil palavras… Esquecemos porém que há ao menos a possiblidade de aquilo ter sido editado, encenado ou até mesmo criado por computador. As táticas de desinformação funcionam porque a modernidade viciou as pessoas quanto ao instantâneo, isto é, as coisas tem que ser feitas o mais rápido possível, portanto as informações que chegam até nós já estão bem mastigadas. Como não é habito do povo fazer pesquisas sobre aquele assunto, fica fácil demais a manipulação das informações. Pensar? Não temos tempo pra isso… Afinal, temos uma grande rotina diária: escola, trabalho, casa. Não há tempo para pensar, deixemos que aqueles que são pagos para pensar que façam isso por nós… Claro, daí em diante aplaudimos quando os que pensam por nós se achem  no direito de mandar e desmandar na sociedade. Em suma, estamos nos mesmos tempos medievais onde o conhecimento era propriedade exclusiva dos nobres iluminados. Ah, alguém pode dizer que nosso conhecimento está bastante compartilhado, que hoje ninguém mais é dono do conhecimento… Quanta ilusão! É só ver as leis de propriedade intelectual (aliás, o próprio nome “propriedade intelectual” é bastante sugestivo). Por causa da propriedade intelectual, as empresas farmacêuticas detém o monopólio dos remédios e os vendem a preços abusivos, deixando milhares sem o direito que lhes é garantido pela constituição, o que significa que a saúde dos cidadãos está nas mãos delas. Onde está a modernidade nisso? A vida dos cidadãos de antigamente também não estavam nas mãos dos reis e déspotas exploradores que tiravam a vida de quem lhes aprouvesse? Que adianta então criar Bolsa Família, Bolsa Escola, Bolsa X ou Y, se o governo e as empresas não criam condições para que essas pessoas possam realmente mudar de vida e experimentarem uma verdadeira justiça social?

Também é pertinente salientar as questões políticas para vermos o quanto de moderno a modernidade nos traz. Ainda  usamos o mesmo sistema de 5 mil anos atrás para fazer as coisas, isto é, dependemos do dinheiro e dos impostos. Ainda dependemos de um Estado, de uma pessoa ou um grupo de pessoas que  nos “liderem”, enquanto proclamamos alegremente a “liberdade, igualdade e  fraternidade”! Sim, temos um belo discurso, mas nenhuma ação concreta. E daqueles que se cansam da alienação coletiva e passam a querer mudar alguma coisa falamos que são uns hereges, uns trouxas, uns comunistas, uns vagabundos, rebeldes, terroristas (enfim, o rótulo depende de onde estamos nos inserindo), pessoas que devem ser consideradas ameaças à estabilidade da sociedade. Dizemos que temos liberdade de expressão, mas quaisquer opiniões contrárias ao pensamento coletivo são rapidamente descartadas e silenciadas.

Enfim, a modernidade possui um discurso aparentemente belo, mas é negado na prática. Falamos muto e fazemos nada. Somos os mesmos seres humanos de sempre.  De fato, a única conclusão que se pode estabelecer é essa: mudamos o mundo, modernizamos o mundo, mas não mudamos nem modernizamos a nós mesmos. Logo, a modernidade é uma farsa…

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  1. Meleq
    14/10/2010 às 23:03

    Desfrutemos deste mundo, sem estar nele, mas percebamos em onde estamos pisando.

  2. 15/10/2010 às 10:11

    Fiquei sem palavras, de facto esta é a sociedade onde estamos inseridos.
    Regemos a nossa vida baseada nos pensamentos da maioria, somos autênticos robôs que fazemos aquilo que nos incutem. Assimilamos tanta informação distorcida daquilo que deveria ser o bom…e estamos satisfeitos com os nossos desvios do que é correcto.

    Este texto fez-me lembrar a musica: É proibido pensar:

    Continua!

  3. 15/10/2010 às 10:17

    Prefiro as imagens deste video – “É proibido pensar”:

  4. 22/10/2010 às 21:56

    A cada texto lido o blog me surpreende!

    Esse texto me lembra uma música:
    http://www.vagalume.com.br/system-of-a-down/boom-traducao.html

    Renatim, gostaria que você desse uma lida nesse texto da wikipedia:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Projeto_Venus

    Como li recentemente no blog baciadasalmas:
    (“vocês anarquistas precisam se organizar”) :D

    • renatim
      22/10/2010 às 22:32

      Obrigado pela recomendação, Hector.

      Nossa, esse Projeto Venus é superinteressante!
      É bom saber que tem pessoas que querem mudar o mundo pra melhor, hehe

      Realmente, o blog da Bacia das Almas é excelente também, sempre passo por lá.

      Obrigado pela sua contribuição amigo!

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