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UMA NOVA TEOLOGIA É PRECISO


Por Renato A. O. de Andrade

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A Teologia tem sido uma das ciências mais mal compreendidas pelo ser humano. Isto ocorre simplesmente porque não a consideramos  como ciência, mas como um conjunto unificado de dogmas e doutrinas sistematicamente reunidas por um credo religioso. Daí surge as enormes quantidades de Teologia, como a Reformada, a Católica, a da Prosperidade, a da Libertação, cada uma, curiosamente, se dizendo mais correta do que a outra…  Assim, sempre associamos a Teologia como uma disciplina religiosa, a ser aprendida somente pelos que aspiram cargos eclesiásticos. Nada, porém, está tão longe da verdade quanto nossas concepções daquilo que venha a ser o “Estudo de Deus”.

A construção dos sistemas teológicos sempre esteve rodeada de ideologias políticas, como foi o caso dos protestantes e dos católicos. Ao invés de se comportar como uma Ciência Natural, a Teologia se transformou num instrumento de dominação. Em nome da Teologia já se fez absurdos contra a vida e a dignidade humana. O tão aclamado João Calvino e seus comparsas, por exemplo, quis impor toda a sua teologia aos habitantes de Genebra e ai daquele que discordasse – teria o mesmo destino que era reservado aos hereges pela Igreja Católica Romana. Semelhantemente o fez Lutero, usando suas concepções para permitir o extermínio de cerca de 100 mil camponeses que somente queriam se livrar da exploração imposta pela nobreza alemã. Tudo isso em nome de meras teorias. É curioso o fato de que os ateus em geral não matam porque alguém discorda deles, mas os teólogos e suas facções sim…

Mas então o que viria a ser de fato a Teologia?

Grande parte do problema está na nossa definição do que venha a ser Teologia. Definimos a Teologia em algo como o “estudo sistemático de Deus e seus atributos”. Isto por si só é um absurdo lógico. Deus não pode ser uma cobaia para ser estudada, mas tratamos como se assim fosse. Deus é a cobaia e o recipiente para se fazer a experiência de estudo são os livros da Bíblia Sagrada, onde Deus não pode fugir. Ou seja, limitamos a Deus dentro de uma dimensão inexistente de religiosidade criada pela nossa própria mente. Feito isto, fazemos as experiências com a cobaia através de uma série de passos prescritos por nossas confissões de fé, isto é, testamos se Deus responde positivamente à predestinação, ao batismo por imersão, ao pósmilenismo etc. Depois, fazemos continhas como os Cinco Solas, as Quatro Leis Espirituais, as Sete Chaves da Vitória e blá blá blá. Por fim, apresentamos este Deus estereotipado e o impomos aos outros que queiram fazer parte de nosso clubinho. Quando alguém discorda de tal opinião, dizemos: “eu testei no meu laboratório, está tudo escrito no meu relatório, portanto, se você não aceita isto, caia fora daqui seu herege!”. Então demonizamos as opiniões contrárias.

Tudo isto tem cara de ciência, mas não é. Uma teoria científica, é para os cientistas de verdade, uma mera teoria e nada mais. Até que se prove por A mais B que ela é um fato, não poderá ser considerada uma verdade absoluta. Aliás, até mesmo as verdades absolutas da ciência não podem ser tidas como verdades absolutas, como nos é informado pela Física Quântica. Na Física Quântica, a mais universal das leis da Física simplesmente deixa de  ser universal. Um estudo publicado recentemente por um cientista quântico revela que as leis da Física mudam no universo. Isto quer dizer que a lei da gravidade pode não existir num dado ponto do universo ou a lei da termodinâmica ser ao universo em outro lugar. Assim cai por terra quaisquer definições anteriores sobre o absolutismo dessas leis no espaço, dizendo aos cientistas que eles tem muito, mas muito o que aprenderem ainda. Partindo deste ponto, podemos argumentar: se as leis da Física, que se consegue provar matematicamente por A mais B não podem ser consideradas universalmente absoluta, então porque a Teologia poderia? E seguindo o mesmo raciocínio, a Física se baseia em fatos e experimentos, enquanto a Teologia parte de pressupostos filosóficos e teleológicos em cima de algo que não se pode ver. Logo, isto deveria ser mais um motivo para que os teólogos reconheçam que suas leis e sistemas podem mudar e devem mudar. Por isso, se faz necessário um novo conceito de Teologia. Na verdade, uma nova e revolucionária Teologia é preciso.

Esta nova Teologia portanto, não é nenhuma outra coisa senão o resgate da origem da palavra e fazer jus a ela. Sendo a Teologia uma ciência, os teólogos deveriam estar abertos a quaisquer modificações em suas teorias ou suas leis. No entanto, insistimos em apegarmos a modelos antigos e ultrapassados de nossa compreensão de Deus e seu relacionamento com o homem. Os protestantes reformados se apegam aos dogmas da Teologia Reformada e caem no mesmo erro dos que eles criticaram na Igreja Católica. Para alguns, tudo o que vem antes da reforma deve ser totalmente descartado. Então em a propagação dos Cinco Solas como se fossem dogmas irrefutáveis, o que é um absurdo, porque se nem a Bíblia é irrefutável, quanto mais nossas concepções do que entendemos por Deus. A ciência admite eros passados e conserta-os no presente, mas os teólogos em geral não querem saber disso. Enquanto Einstein mudava completamente a compreensão primitiva da natureza dos movimentos e da luz feitas por Newton, os teólogos pouco fizeram para revisar o que Calvino e Lutero disseram. Os que tentavam revisar alguma coisa eram taxados de liberais ou hereges, afinal eram um grande perigo para o sistema dominante dos teólogos.

Um exemplo claro da afirmação acima está registrado na História com o nome de Concílio de Nicéia. Convocado pelo imperador Constantino, o concílio determinou que tudo o que f0osse dito contrário ao que estaria afirmando ali seria heresia e deveria ser duramente perseguido e castigado. Constantino estava lançando ali as bases do que viria a se chamar de Cristianismo (que faria mais justiça se chamasse de Constantinianismo). Assim se sucedeu com outros concílios, onde violência e a morte estavam juntas em nome daquilo que se achava ser o correto, nada muito diferente do fanatismo islâmico dos grupos xiitas. Tudo isto poderia ser evitado se a coisa toda fosse tratada apenas como teorias científicas ao invés de dogmatismo religioso.

Lutero, quando questionado sobre a possibilidade de diversas interpretações de um mesmo texto se a bíblia fosse divulgada, argumentou que era melhor que assim se fizesse do que deixar o texto nas mãos do clero católico. Um belo discurso se fosse levado a sério. No entanto, parece que ele recuou. O posto de sacerdote lhe subiu à cabeça e ele simplesmente negou este direito ao povo, concentrando novamente o conhecimento teológico na mão da elite. Portanto, embora ele se propôs à mudanças no começo, acabou retornando ao mesmo catolicismo de sempre, apenas sem os santos e o Papa.

Hoje, as igrejas estão impedindo seus membros de pensarem e perguntarem. Quando alguém pergunta ou duvida daquilo que está sendo ensinado, os teólogos se limitam a dizer “está escrito na Bíblia” ou “a Teologia Reformada diz isso…” ou ainda “isto que você está dizendo é uma heresia combatida há séculos no Concílio X”.  Praticamente se proíbe as pessoas de usarem seu intelecto e sua práxis de voida cristã para compreender a Deus e contribuir para uma teologia construtiva e altruísta.

Um fator que pode influenciar muito nesta improbabilidade de mudança nos modelos teológicos é o que poderíamos chamar de medo. Medo de que desacreditando na predestinação poderíamos perder nossa alma. Medo de que Deus não se agradasse de nós se duvidássemos mesmo que por um instante, da doutrina da Trindade. Todos estes medos fazem com que o ser humano não queira revisar sua própria espiritualidade, o que causa escravidão. Viramos escravos de um sistema da denominação a qual pertencemos. Daí a teologia deixa de ser ciência e passa a ser instrumento de dominação.

As teologias antigas tem seu valor. O que não podemos fazer é nos limitarmos a elas, mas sim construir uma ponte de ligação, utilizando o que há de melhor entre elas, assim como as ciências naturais estão fazendo hoje. Poderíamos por exemplo, utilizar as contribuições da Teologia Reformada com a Teologia da Libertação e chegarmos a um consenso temporário do que poderia ser realmente aproveitado entre as duas. Poderíamos nos esforçar para unirmos o melhor de Calvino e de Armínio, sem considerar uma melhor do que a outra. Isto sim é teologia científica.

O que estou querendo dizer é que se a Teologia é uma ciência, então deve ser tratada como tal. Proponho uma Teologia Livre, usando o mesmo conceito de Software Livre. Cada pessoa que quiser contribuir para os estudos teológicos poderá fazê-lo sem medo. Isto porque a Teologia Livre estará totalmente livre do copyright das denominações e das religiões, ou seja, sem dogmas e doutrinas absolutas e principalmente, livre das maquinações dos sacerdotes. Uma teologia onde cada um pode ter sua teoria e debate-la com o grupo, mas sem impô-la como a certa. Uma teologia que mereça de fato, ser chamada de ciência. As perguntas da teologia devem ser construídas pela comunidade, não o contrário. E o papel do teólogo não é responder definitivamente, mas construir e reconstruir seu sistema baseado na experiência desta comunidade com Deus.

Aí sim, a humanidade encontrará de fato o seu objeto de estudo, Deus.

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  1. Malaka
    09/10/2010 às 23:31

    Aquilo que chamamos de novo com o tempo pode chegar a envelhecer. Procuremos alguém que ressucitou não é… procuremos a uma pessoa como nós. Procuremos a Jesús em cada pessoa que são próximas a nós… já que amando a elas estaremos amando a Ele

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