DEUS NÃO TEM POVO
Uma das maiores pretensões do homem é achar que faz parte do “povo de Deus”. A ideia nefasta de que Deus tem um povo é tão absurda quanto antidivina. No entanto, desde os tempos imemoriais, as civilizações e os impérios tem explorado isto de diversas maneiras, seja para fortalecer o nacionalismo, se impor como seres superiores ou simplesmente para dar credibilidade à suas crenças ante o pluralismo religioso.
Ao afirmar-se como integrante de um suposto povo de Deus, o homem abre brecha para uma série de ações que variam de acordo com a sua concepção do que seja Deus. Curiosamente, a afirmação pretensiosa de povo de Deus não ocorria nas religiões e povos ditos pagãos, senão que o fenômeno aparenta ser forte característica do monoteísmo. Assim, os judeus acreditavam que eles eram a nação exclusiva do deus Yahweh, seu deus nacional e que refletia as particularidades e anseios dos semitas. Semelhantemente os muçulmanos se afirmam como povo do deus Allah, que nada mais é do que o deus judaico com traços árabes. Em meio a isso, os cristãos institucionalizados de todas os times entram na batalha cujo premio é o status de raça eleita, povo escolhido de Deus, nação santa ou qualquer outro título não menos pretensioso.
Mas o status de ser povo de Deus gera um interessante efeito colateral. O povo de Deus torna-se o Deus do povo, pois o povo pensa que se apropriou de Deus de tal forma que fecharam todas as fronteiras e nacionalizaram o ser divino. Cresce então o orgulho e a luxúria, que abre várias portas para a violência, guerra e intolerância em nome de quem nada tem a ver com isso.
Como já disse em outro post, já se matou, estuprou, violentou e torturou gente demais em nome de Deus.
Portanto, para o bem da humanidade, proclamo: Deus não tem povo.
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Renatim
SE ELE ERA INOCENTE…
Jesus era do ponto de vista do Sumo Sacerdote um herege e um impostor, do ponto de vista dos comerciantes um agitador e um comunista. Do ponto de vista imperialista dos romanos era um traidor, do ponto de vista do senso comum um louco perigoso. Do ponto de vista do esnobe, que exerce sempre grande influência, era um vagabundo sem um tostão.
Do ponto de vista da polícia ele era obstruidor das vias públicas, pedinte, aliado de prostitutas, apologista de pecadores e depreciador de juízes; seus companheiros eram vadios que tinham sido seduzidos de seus ofícios regulares para uma vida de vagabundagem. Do ponto de vista dos devotos Jesus era um violador do sábado, negador da eficácia da circuncisão, advogado do rito estranho do batismo, glutão e bebedor de vinho. Era odiado pela classe médica por praticar a medicina sem qualificação, curando as pessoas por curandeirismo e sem cobrar pelo tratamento.
Ele era contra os sacerdotes, contra o judiciário, contra os militares, contra a cidade (tendo declarado que era inconcebível que um rico entrasse no reino do céu), contra todos os interesses, classes, principados e potestades, convidando a todos que abandonassem essas categorias e o seguissem.
Por todos os argumentos legais, políticos, religiosos, do costume e da polidez, Jesus foi o maior inimigo da sociedade do seu tempo já colocado atrás das grades. Era culpado de cada acusação feita contra ele, e de muitas outras que não ocorreu a seus acusadores levantar. Se ele era inocente, o mundo inteiro era culpado. Inocentá-lo seria atirar pela janela a civilização e todas as suas instituições. A história confirma o litígio contra ele, pois nenhum Estado jamais constitui-se sobre os seus princípios ou tornou possível viver de acordo com os seus mandamentos; os Estados que assumiram o nome dele foi para usá-lo como credencial que os habilitasse a perseguir os seus seguidores de modo mais plausível.
Bernard Shaw, no prefácio de On the rocks (1933)
RESOLVENDO O ENIGMA DA TRINDADE – PARTE I
AVISO: Texto potencialmente perigoso para a sua fé! Se nao tem certeza da sua fé, NAO LEIA!!
Por Renato A. O de Andrade
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De todos os enigmas que a humanidade vem tentando solucionar, o mais intrigante seja talvez, a chamada Doutrina da Trindade. Durante séculos tem havido debates acirrados em torno da natureza trinitariana de Deus e a fútil tentativa de explica-la através da razão. Os teólogos trinitarianos consideram-na como uma das doutrinas de base para a fé cristã, assim como outras doutrinas não menos eruditas como a justificação pela fé, a infalibilidade da Bíblia como Palavra de Deus, a morte substitutiva de Jesus e tantas outras que juntas formam a base do cristianismo institucional. Negar a Trindade, afirmam eles, implica necessariamente em negar a Bíblia e sua autoridade, a pretensa divindade de Jesus e por fim o sacrifício redentor na cruz. Daí surgiram, desde a Idade Média, as violentas perseguições aos que negam tal doutrina, perseguições estas que foram executadas não apenas pela Igreja Católica e seu mecanismo judicial, a Inquisição, mas também por aqueles que diziam combater as “heresias e abusos da Igreja”, isto é, os protestantes. Sim, tanto Lutero, quanto Calvino e Zwinglio eram partidários do derramamento de sangue em nome da “sã doutrina”, e nisto estava inclusa a negação da Trindade. Em suma, estavam fazendo a mesma coisa que tanto condenavam na Igreja Católica.
Mas afinal, qual é de fato o problema com a Trindade que leva muitas pessoas a negarem esta doutrina? É simplesmente a total e absurda falta de lógica na formulação tradicional dela. De fato, ela sequer é citada com este nome na Bíblia e todas as referências a ela não passam de pura especulação conceitual. A Trindade em si quebra diversos paradigmas e postulados da Lógica e da Matemática, e até mesmo numa conceituação simbólica e filosófica é impossível de ser compreendida. Aparentemente, o cara que postulou o enunciado trinitariano era dotado de uma genialidade superior à de Einstein para conseguir criar uma coisa dessas e ter absoluto sucesso em sua empreitada…
Sem mais delongas, vamos ao que afirma os postulados da Trindade:
- Há um só Deus, que pode ser compreendido em três pessoas, a saber: Deus Pai (vulgo Yahweh, Javé ou Jeová), criador de todas as coisas; Deus Filho, Jesus, o Redentor da Humanidade; e Deus Espírito Santo, o Consolador.
- Todos os três são um só Deus (?!), mas nenhum é o outro, ou seja, o Pai não pode ser o Filho, o Filho não pode ser o Pai, o Espírito Santo não pode ser o Filho nem o Pai…,enfim, cada um com sua própria função.
- Curiosamente, Deus Filho e Deus Espírito são subordinados a Deus Pai e coexistem com ele (!!).
- Mas os três compartilham da mesma natureza divina e dos atributos divinos.
- E todos eles existem desde a eternidade.
Resumindo tudo isto, há um só Deus que se divide em três pessoas e as três pessoas são um só Deus. Entendeu? Não? Nem eu.
Como se vê, a Trindade não é algo para mortais como eu ou você entendermos. Isto porque causa um choque cerebral de tal forma que nossas mentes não conseguem entender como 1 = 3 e 3 = 1. Felizmente, há algumas boas almas que tentaram esclarecer as coisas, ao contrário de muitos crentes que por preguiça ou conformismo, preferem dizer simplesmente que “há coisas que Deus não revelou e portanto, anote num papelzinho e pergunte a ele quando estiver no céu (se você for para o céu, é claro)”. Vejamos alguma coisa que possa nos dar alguma luz.
O Triangulo
Certos teólogos afirmam que o conceito trinitário pode ser compreendido fazendo-se alusão ao triangulo. O triangulo é uma figura geométrica com três lados. Ah, sim, esqueci de especificar o tipo, tem que ser um triangulo isósceles, ou seja todos os lados iguais. A ideia é que Deus pode ser comparado a um triangulo, tem três lados iguais, mas formam uma figura só. Ou seja, Pai, Filho e Espírito Santo são os lados A B e C, e todo o triangulo ABC é Deus. Algo mais ou menos assim:
Esta tem sido a ideia mais difundida da representação da Trindade. No entanto, a própria representação se extingue quando uma das pessoas sai do triangulo. Se todos os lados são igualmente Deus, então deve haver independência entre eles, já que sendo Deus, eles podem fazer o que bem entenderem sem dar satisfações um ao outro. Assim, se uma pessoa da Trindade (que é Deus) resolve sair do triangulo, como houve com Jesus como afirma o Cristianismo, já não é mais um triangulo, e portanto, se esta pessoa resolve se rebelar contra as outras duas (que também são Deus) então se destruirão mutualmente e não haverá mais Deus ou as duas destruiriam o rebelde e não haverá mais Trindade! Porém, tanto uma opção quanto a outra entram em contradição com o postulado da submissão do Filho e do Espírito Santo ao Pai. Mas se o Filho e o Espírito Santo são iguais ao Pai em poder e divindade, como podem ser submissos a ele? Afinal, se houvesse uma batalha, seria dois contra um… E se o Pai tem o poder supremo, então os outros dois seriam deuses menores ou semideuses o que anula completamente a noção de tri-unidade e tri-divindade. De qualquer forma, a melhor representação para estes casos não é a figura acima, senão esta abaixo, muito famosa por sinal.
Os Estados Físicos da Água
Há uma alma inteligente que comparou a Trindade com os estados físicos da água. De acordo com a teoria, Deus é que nem a água, que pode se manifestar em três estados, sólido, líquido e gasoso. Os estados da água fazem com que ela mude de aparência, mas sua composição química básica (H2O) não muda. Assim, o Pai, o Filho e o Espírito Santo seriam os estados de Deus. Como disse Bill Maher, dá pra ser pego por alguns instantes por esta interessante ideia, mas depois vê-se a inconsistência desse argumento. Apesar da água possuir três estados, os três não podem coexistir ao mesmo tempo. Ou seja, não existe uma água que seja gelo e vapor ao mesmo tempo em que está em estado líquido. Além disto, ao passar para um estado ela deixa de ser o outro estado. Logo, esta não é uma boa ilustração para a Trindade.
Como vemos, as principais tentativas de se explicar a Trindade acaba por contradizer-se, já que o problema todo está na base. A maioria dos cristãos e religiosos se conformam apenas em dizer que “Deus está além da nossa imaginação!”. Ou será que é a ideia da Trindade que está errada? Eu poderia afirmar como alguns grupos defendem, que não há Trindade e ficaria tudo bem. No entanto, quis ver até onde poderia ir supondo que a Trindade realmente existe. E aqui está toda a conclusão para um dos maiores mistérios da humanidade.
Continua…
SOBRE A INSPIRACÃO E A INFALIBILIDADE DA BÍBLIA – Parte I
Por Renatim
Desde há muito tempo tem havido debates calorosos acerca de um livro conhecido como A Bíblia Sagrada. Chega-se inclusive, a ter assassinatos e torturas por parte de quem alega defender a autoridade bíblica e por quem nega tal autoridade. Como em geral os grandes debates costumam ser polarizados, temos de um lado aqueles que advogam a autoridade total, infalível e divina da Bíblia, ou como afirmava Spurgeon, “a Bíblia, toda a Bíblia e nada mais do que a Bíblia é a religião da igreja de Cristo”. Do outro lado, há os que definem a Bíblia como um mero livro de historinhas e invenções humanas e por isso não é de forma alguma, a Palavra de Deus. A partir destas duas visões extremas, temos diversos abusos cometidos por ambos os lados em nome de Deus, ou da falta deste.
Os que afirmam ser a Bíblia 100% a Palavra de Deus costumam raciocinar da forma proposta por Norman Geisler e Thomas Howe em seu Manual de Enigmas, Dúvidas e “Contradições” da Bíblia:
A Bíblia é a Palavra de Deus (premissa I)
Deus não pode errar (premissa II)
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Logo, a Bíblia não erra e portanto, é infalível (conclusão)
No entanto, deixando de lado as dicotomias tão presentes em quaisquer debates filosóficos, vamos olhar um terceiro lado, o qual eu acredito ser o mais plausível e equilibrado: a Bíblia contém a Palavra de Deus. O que significa isto afinal? Que a Bíblia não é 100% a Palavra de Deus, mas também não deixa de ter em suas páginas a Palavra de Deus. Isto quer dizer portanto, que há algumas partes desta que podem ser consideradas divinamente inspiradas e partes são simplesmente criações e interpretações de uma cultura envolta de uma visão política de Deus. E neste último caso, acredito que o Antigo Testamento, em especial o Pentateuco se encaixa perfeitamente.
A lógica proposta por Geisler & Howe estaria correta se houvesse como provar a primeira premissa (A Bíblia é a Palavra de Deus). E é aqui que mora toda a problemática. Se admitirmos que a Bíblia inteira é a Palavra de Deus, teremos alguns problemas éticos e filosóficos bem interessantes que exponho a seguir, pegando apenas o Pentateuco e o comparando com as atitudes de Jesus.
O CONTRASTE ENTRE YHWH E JESUS
Pergunte à uma ideia: A quem serves? – Bertold Bretch
Os judeus diziam que o nome de Deus era YHWH (tente pronunciar isso…), que numa transliteração posterior ficou como YAHWEH, que nas traduções muito posteriores ficou como Javé ou Jeová. Afirmavam que este Deus apareceu aos patriarcas Abrão, Isaque e Jacó, que foram os responsáveis pelo surgimento da nação judaica e que esta seria única e exclusivamente o povo de Deus. A partir de Moisés a nação passou a ser regida por um grupo de sacerdotes (que não existiam antes na identidade judaica) e por um código de conduta semelhante ao Código de Hamurábi (que foi feito muito antes) teoricamente dado por Deus a Moisés. Ora, é aqui justamente o problema. Com exceção dos Dez Mandamentos que são de fato, Palavra de Deus, a Lei de Moisés apesar de melhorar em muitos aspectos os códigos anteriores e piorar em outros, contém contradições com a conduta de Jesus no Novo Testamento e com o próprio relacionamento entre o homem e Deus. Vejamos alguns exemplos:
Se uma jovem é dada por esposa a um homem e este descobre que ela não é virgem, então será levada para a entrada da casa de seu pai e a apedrejarão até a morte.
Deuteronômio 22:20-21
Desde a primeira vez que li este versículo, estremeci e fiquei pensando se isso era de fato uma lei de Deus ou simplesmente uma lei criada por homens daquela terra para obter poder total sobre as mulheres. Fazendo uma análise deste versículo, temos que:
- A mulher não tinha direito de escolha, já que ela era dada por esposa a alguém por seu pai, o que faz deste suposto Javé um deus tipicamente machista e concentrador de poder.
- Aparentemente, ao homem não era exigido a castidade , e muito menos a pena era aplicada a ele. Portanto, Javé não é justo.
- A falta de hímem não implica necessariamente na perda da virgindade, já que esta pele pode se soltar de outras formas que não sejam relações sexuais. Além disto, há a possibilidade desta mulher ter sido abusada e estuprada em algum momento ates do casamento, o que torna a lei completamente injusta para com elas. Portanto, este deus é falso, visto que se ele criou a mulher, deveria saber destes aspectos biológicos e sociais que podem ocasionar a perda do hímem.
- A barbaridade chega a tal ponto de a filha ser executada na porta de seus pais. E Javé é dado como um Deus misericordioso!
- No final, tal atitude beneficia apenas o homem, visto que a mulher se enquadra na sociedade judaica como mercadoria sexual, não havendo a necessidade de sentimentos reais para se ter um casamento.
Os teonomistas não tem argumentos contra os expostos acima. Não obstante, o problema gera uma questão ética filosófica séria:
Se YHWH é misericordioso e bom como afirma vários textos do Antigo Testamento, então Ele não poderia exigir a morte de uma jovem por não apresentar o hímem por quaisquer motivos. Se Ele é justo, estaria cometendo injustiça grave ao igualar a falta do hímem ao crime de homicídio, que é o que esta lei esta fazendo. E por fim, se um homem se casa com esta jovem e vê que ela não é virgem, mas ele a ama de verdade e a perdoa e escolhe viver com ela, não estaria este homem violando a lei de Deus? Sim! No entanto, tal homem é incrivelmente, mais misericordioso do que o próprio Deus e portanto, melhor do que Deus, o que é impossível! Conclusões:
- Javé é um deus mesquinho, sádico e vingativo E todo o resto do Velho Testamento que diz que ele é misericordioso, bondoso etc é FALSO.
- OU a dita Lei não foi criada por Deus e talvez nem por Moisés e sim por sacerdotes posteriores que afim de justificar seus atos cruéis disse que tais atos eram ordens de Javé, assim como os papas usavam Deus para justificar atos hediondos durante a Idade Média.
Se a Bíblia é infalível e ela toda é a Palavra de Deus então optamos pela conclusão I. No entanto, a própria conclusão entra em contradição com a premissa I de Geisler & Howe, já que a conclusão de que YHWH seja um deus mesquinho, sádico e vingativo implica necessariamente na anulação de todo o resto do texto que afirma a imagem de um deus bondoso, o que consequentemente nos leva à conclusão de que nem toda a Bíblia é palavra de Deus. Logo, quaisquer que sejam as conclusões, temos que a credibilidade do texto bíblico está seriamente prejudicada.
No que concerne às diferenças entre as atitudes de Jesus e a lei de Moisés, tais diferenção são muito visíveis. E aqui a lógica se aplica também: Se Jesus é Deus encarnado e a Lei de Moisés era a lei de Deus, não há como ele desobedecer sua própria Lei, já que ele estava sujeito a ela enquanto estivesse em sua forma humana. Entretanto, por várias vezes Jesus pareceu desobedecer à Lei na visão dos grandes mestres da época, os fariseus. Isto significa duas outras possibilidades:
- Jesus estava desobedecendo à interpretação errada da Lei por parte dos fariseus.
- OU a tal Lei de Moisés não era de fato, Lei de Deus.
Admitindo a primeira possibilidade, temos que admitir também que havia erros nos textos do Pentateuco, já que o próprio Jesus afirmava que ninguém seguia o texto da Lei ao pé da letra como os fariseus. E não é pra menos. Durante 400 anos os judeus foram exilados na Babilônia, um povo cruel e sanguinário, adepto de religiões diferentes da praticada pelo povo judeu. No contato entre eles, pode ter havido um sincretismo, isto é, uma mistura das filosofias religiosas, como é o caso da Cabala, mistura de judaísmo com o misticismo babilônico. Assim, é possível que muita coisa tenha sido apreendida por aqueles que futuramente se tornariam sacerdotes do Grande Templo de Jerusalém, que tivesse influenciado no texto da Lei e em sua interpretação.
Já na segunda possibilidade, temos que Jesus anula por completo qualquer coisa que está na Lei de Moisés que se contraste com o mandamento áureo da filosofia cristã “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”, que pode ser resumido na prática do “faça aos outros aquilo que gostaria que fizessem com você”, como o próprio Jesus afirma. Há total incompatibilidade das penas de morte aplicadas no Antigo Testamento com este mandamento, já que ninguém quer matar a si mesmo, já que se fizesse isto faria em si mesmo primeiramente, o que não daria tempo de fazer em outra pessoa. Logo ninguém tem o direito de matar ninguém. Mas alguém diria que quem mata e o Estado e portanto este estaria isento deste princípio. Entretanto, o Estado é uma invenção humana para alguém manter o poder e controle sobre a vida dos outros e curiosamente, a Lei de Moisés de nada serviu quando Davi no posto de Rei adulterou com Bate-Seba e matou o marido desta. O Estado é feito, acredito, por pessoas humanas (ou semi-humanas, talvez) e é na teoria a representação de um coletivo, logo se um Estado se diz cristão (como os EUA), e se diz a representação de Deus na Terra, deve haver subordinação a este mandamento do próprio Deus encarnado.
No famoso caso da mulher adúltera, temos os fariseus trazendo uma mulher que se enquadrava nos artigos da Lei de Moisés passíveis de punição capital. Ora, a princípio os fariseus não forneceram quaisquer provas de que a mulher foi realmente pega em adultério. A resposta de Jesus a eles implicava em dupla condenação, a individual e a coletiva. Ao dizer “quem estiver sem pecado que seja o primeiro a lhe atirar pedra”, Jesus estava expondo violentamente o podre do indivíduo (que não vê erros em si mesmo e que deseja ter o poder sobre a vida de outra pessoa, mesmo que para isso tenha que deturpar o que Deus disse) e o podre do coletivo social humano que se rebaixa a um pequeno grupo de pessoas e acaba contribuindo com a massificação da crueldade e da exploração em nome do poder e do dinheiro.
Caso semelhante pode ser avaliado no massacre de mulheres e crianças perpetrado por Josué. De acordo com a Bíblia, Deus ordenou que Josué entrasse em Jericó e não deixasse ninguém respirando, um massacre total que inclui animais, mulheres, crianças e idosos. O problema é: esta atitude de Yahweh é coerente com a atitude revelada por Jesus? De maneira nenhuma! Tal massacre tem, como John Piper afirma, dimensão étnica e política (e Piper é a favor do massacre, pelo simples fato de que foi Deus quem ordenou para executar seu julgamento). Ou seja, o objetivo maior de Josué era conquistar a terra de Jericó e exterminar seus habitantes, nem que para isto tenha que dizer que Deus ordenou a matança!
No entanto, os teólogos que buscam defender a integridade total da Bíblia afirma que as crianças foram poupadas de um futuro ruim já que quando elas morrem, vão direto para o céu, como anjinhos fofinhos… Lindo! Então façamos um favor à humanidade e matemos todas as crianças! E quanto às mulheres, idosos e animais? Ah, morreram porque Deus executou seu julgamento sobre os pecados deles. Muito bem, e se eu dissesse que Deus me ordenou a matar toda a humanidade por causa dos pecados e crueldades da mesma?
O que estou querendo dizer até aqui é que nossa visão acerca da Bíblia e de Deus foi muito influenciada pela visão deturpada da sociedade judaica sobre o que seja Deus e pelos impérios que nos forneceram as doutrinas que adotamos hoje. Ao adotarmos a Bíblia como infalível e inerrante, estaremos nos submetendo às manipulações decorrentes das forças culturais destes povos, e consequentemente, concordamos com as crueldades cometidas por estes em nome de sua imagem de Deus.
Continua…
O QUE DESTRÓI A HUMANIDADE
A Política, sem princípios; o Prazer, sem compromisso; a Riqueza, sem trabalho; a Sabedoria, sem caráter; os negócios, sem moral; a Ciência, sem humanidade; a Oração, sem caridade.
Mahatma Gandhi
VIVER…
Viver não tem sentido
Sem alguém para amar
Logo, não há sentido em viver
Se não houver alguém por quem morrer!
O AMOR É SUPERIOR A TODOS OS DEUSES
Num certo tempo da história humana, alguém teve a brilhante ideia de institucionalizar sua visão acerca da divindade, dando início oficial à religião. Era uma ideia genial: prevalecendo seu deus, prevalece seu domínio sobre todos os que aderiram à sua visão (voluntariamente ou à força). Ele poderia fazer de tudo, desde se autodeclarar filho do tal deus até ordenar enormes matanças em nome deste, passando por ter poder sobre todos os aspectos da vida de cada elemento de sua sociedade. E assim prevalece até hoje. Quer matar alguém? Invente um motivo divino, uma ordem por exemplo ou a obediência a uma dita lei feita a 10 mil anos atrás. Quer fazer guerras? Invente um lado do bem (o seu e o do seu deus) e um lado do mau. Quer estuprar ou ter tantas mulheres quanto desejar? Invente uma divindade do sexo (havia milhões dessas na Antiguidade). Quer torturar? Invente alguma coisa que você possa considerar blasfêmia contra seu deus. Quer ficar rico da noite pro dia? Invente algum benção que seu deus possa oferecer e coloque à venda a título de “dízimo”, “oferta” ou “donativo” (não possui impostos ou mesmo fiscalização, então não se preocupe. O que você arrecadar é o que você vai ter). Quer impor sua ideologia sobre todos os fiéis? Invente um cargo supremo (aiatolá, papa, apóstolo, tataravô-de-santo, rei, vice-deus… a imaginação é o limite!) e diga que seu deus lhe revelou que você tem a missão de consertar a sociedade e salvá-la do mal.
Assim foi a humanidade por aproximadamente 4 mil anos. Rezando e pagando, como dizia Proudhon. Não havia nenhum questionamento da parte de um pai babilônico por exemplo, se um sacerdote lhe dissesse que sua filha deveria se prostituir para trazer as bençãos de Astarote para sua casa. Era uma ordem divina. Da mesma sorte, não havia questionamento quando se oferecia os bebês para serem assados vivos nas mãos em brasa de uma estátua de Moloque. Curiosamente, nem mesmo os israelitas escaparam deste vício religioso. Se os líderes dizem que Deus ordena o massacre total de um povo (incluindo crianças principalmente), lá eles estavam, espada em punho e com sangue infantil nas mãos. Não sobrou ninguém. Castigo divino, é o que dizem. Foi merecido. Logo mais tarde, as Cruzadas repetiriam o mesmo feito em nome do seu deus e da sua justiça. E como recompensa, dinheiro, escravos e concubinas!
Os livros sagrados estão repletos de regulamentos e punicões severas pois fazem parte de um sistema de dominacão e poder que abusa das palavras contidas neles, sempre em prol do sacerdote ou do dominador. Na Suíça Calvinista, o poderoso João Calvino nada fez que impedisse que um médico e adversário teológico fosse queimado na fogueira por discordância da sua visão de Deus. Na Europa medieval, quem se metesse contra a Igreja Católica era igualmente queimado. Na Alemanha luterana, um grupo de camponeses aproveitava as chamas da Reforma Protestante para reivindicarem também reformas sociais. O que receberam? Lutero, com base na Bíblia mandou literalmente massacrar a todos, porque segundo ele, o rei e a nobreza eram “autoridades ordenadas por Deus” e como supostamente disse Paulo, todos aqueles que se rebelam contra as autoridades divinamente instituídas estão sujeitos à espada. Coisa semelhante ocorre no Islamismo Xiita, aqueles que vivem sob a Sharia, como o Irã. Para alguns xiitas, a simples mudança de religião é passível de condenacão à morte, em nome de Alá.
Em dada época da história, surge um homem de nome Jesus. Simples e humilde, radical e revolucionário, ensinava que a felicidade e a harmonia total entre os seres humanos só é possível mediante a entrega total um ao outro, a busca pela felicidade e o bem-estar do outro, de modo que todos se beneficiariam em igual medida. Fazendo isto, no mundo não haveria guerras, fome, sede, violência. A esta força motriz ele denominava de Amor. E para ele, Deus é amor.
Porém, em sua natureza o verdadeiro amor não é imposto, mas demonstrado. Os homens, mesmo que pela mais bem intencionada das religiões, queriam impor sua visão de Deus (e portanto sua visão deturpada do amor). Queriam que seu deus prevalecesse. Chegaram até Jesus quando este estava lá sentado na areia escrevendo alguma coisa, e trouxeram-no uma mulher que disseram ter sido pega em adultério. Disseram que segundo a Lei de Moisés (e portanto, a suposta Lei de Deus) ordenava que esta mulher fosse apedrejada até a morte. No entanto, nenhum deles desejariam ser apedrejados, como diz a Regra de Ouro do Cristianismo (“faça aos outros aquilo que você gostaria que fizessem com você”). Também não respeitavam a própria Lei, já que não há relatos de que o homem com quem esta mulher foi supostamente pega tenha sido condenado pela mesma falta. Sabendo disso, o rabi de Nazaré simplesmente lhes disse que aquele que não foi condenado por sua própria consciência, isto é, que não tivessem pecado, que fosse o primeiro a atirar uma pedra. Os fariseus, chocados consigo mesmos, deixaram as pedras caírem no chão e saíram, um a um. O amor tinha vencido a Lei. Em suma, o que Jesus queria dizer era algo como “Não importa o que o seu deus disse ou o que a sua concepção de Deus diz, o amor não permite que esta mulher morra, pelo fato de que nenhum de vocês gostariam de morrer da mesma forma!”.
Esta história tão conhecida nos remete à conclusão de que o amor está acima dos deuses. Para Jesus não importa o nome que você dá a qualquer deus, todos eles são falsos e pura invencão do ego humano. Para Jesus, Deus é manifestado na forca vital do amor, posto que ele é o amor. Para Jesus Deus é um Deus da vida, não da morte.
Além disso, já se matou gente demais em nome de Deus.
Para Jesus portanto, Deus está acima de todos os outros deuses, porque o amor é superior a todos os deuses.
QUE ADIANTA?
Que adianta…. sonhar com um mundo melhor, se ninguém está disposto a construir este novo mundo?
Que adianta… saudar a democracia quando por baixo do pano sempre existem interesses privados acima dos interesses públicos?
Que adianta…. defender a liberdade de expressão se a mídia já lhe diz o que se expressar?
Que adianta… lutar pela paz mundial quando todos os países investem pesado em tecnologias bélicas de última geração e a indústria da guerra, apenas para obter lucros exorbitantes com a matança de pessoas, cria conflitos antes inexistentes?
Que adianta… tentar reduzir a pobreza quando mais de 40% de todos os recursos do planeta estão concentrados nas mãos de 1% da população mundial?
Que adianta… desejar uma companheira ao meu lado, estar disposto a dar a vida pela felicidade dela e sonhar com um amor verdadeiro e fiel, se a maioria das mulheres de hoje querem apenas a carteira?
Que adianta… falar de casamento, de fidelidade, de comunhão, de união, de amor, se os matrimônios estão acabando antes mesmo de começar?
Que adianta… discursar ardentemente sobre a liberdade, se o ser humano é atualmente o ser mais escravizado da face da Terra, chegando ao ponto de se vender e se matar por meras rodinhas de metal?
Que adianta… proclamar os direitos da educação das crianças, se estes são roubados já dentro da escola?
Que adianta… fazer políticas públicas voltadas para a juventude, se os jovens não tem nem oportunidade de pensar por si mesmos?
Que adianta… adorar a Deus, louvá-Lo, o chamar de tudo que é título (Rei, Senhor, Mestre etc) se não somos capazes de obedecer-Lhe ao simples chamado de amar verdadeiramente uns aos outros?
Que adianta… melhorar as condições de saúde através das mais sofisticadas tecnologias medicinais se estas melhorias estão disponíveis apenas para a metade de um quarto dos seres humanos?
Que adianta…. trazer as revoluções socialistas, comunistas, idealistas, se não queremos extinguir a chama do egoísmo que ainda arde dentro de nós?
Que adianta… olharmos para o espaço, contemplar toda a beleza e imensidão do universo, descobrir novos mundos, ou observar o mais profundo segredo dos átomos, se não enxergamos o semelhante que está bem do nosso lado?
Que adianta… construir uma família e dedicar-se totalmente a ela, se não há certeza de que amanhã todos estarão bem?
Que adianta…. viver em sociedade se o homem continuará a ser o lobo do homem?
Enfim, que adianta pois… viver?
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Renatim
NUNCA SE ESQUECA….
Todo ano se tem homenagens às vítimas dos atentados do 11 de setembro de 2001. Mas não há nenhuma homenagem às vítimas das guerras imperiais promovidas pelos EUA e seus comparsas da OTAN, não há nenhuma homenagem aos inocentes que morrem nestas guerras, nenhuma justiça às mulheres constantemente estupradas por estas tropas, nenhuma liberdade aos prisioneiros que sem processo ou provas são levados para Guantánamo e mantidos sob tortura da CIA, e o pior, nenhuma reação global a respeito das constantes violações de direitos humanos em nome do dinheiro e do poder.
Nunca se esqueça disso quando ver alguma coisa que a grande mídia chamar de “intervenção humanitária”.
PARA REFLETIR…
Governar significa usar a força, e usar a força significa fazer para os outros o que certamente não gostaríamos que fosse feito para nós. Conseqüentemente, governar significa fazer aos outros o que não gostaríamos que os outros fizessem para nós, isto é, fazer o mal.
Porque pensar que pessoas comuns não são capazes de auto-organizar suas vidas, e que governantes o farão não em proveito próprio, mas em proveito dos outros?
Liev Tolstói
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A manipulação e a utilização sectária da informação deformam a opinião pública e anulam a capacidade do cidadão para decidir livre e responsavelmente. Se a informação e a propaganda são armas de enorme eficácia nas mãos dos regimes totalitários, também não deixam de o ser nos sistemas democráticos; quem domina a informação, domina de certa forma a cultura, a ideologia e, portanto, também controla em grande medida a sociedade.
Noam Chomsky
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Para manipular eficazmente as pessoas é necessário fazer crer a todas elas que ninguém as manipula.
Galbraith
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Quando a força e a mentira fracassam em quebrar o homem e em domesticá-lo, é aplicada a sedução. Quais são os métodos de sedução do poder? A coação interiorizada que assegura uma consciência tranqüila baseada na mentira: o masoquismo do cidadão honesto. Foi de fato necessário chamar de desprendimento ao que não passava de castração, pintar com as cores da liberdade a escolha entre as várias formas de servidão. O “sentimento do dever cumprido” faz de cada um o respeitável carrasco de si próprio.
Raoul Vaneigem———————————————————-As guerras e as revoluções – há sempre uma ou outra em curso – chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar não horror mas tédio. Não é a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrifício de todos os que morrem batendo-se, ou são mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: é a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente inútil.Fernando Pessoa———————————————————————————Desde que a humanidade entrou no período de civilização, tão longe quanto a memória alcança, o povo reza e paga. Ele reza por seus príncipes, por seus magistrados, por seus exploradores e parasitas. Ele reza, como Jesus Cristo, por seus carrascos. Ele reza até mesmo por aqueles que deveriam rezar por ele. E depois ele paga para aqueles por quem reza. Ele paga o governo, a justiça, a polícia, a igreja, a nobreza, a coroa, a renda, o proprietário. Ele paga por seus passos, para ir e vir, para comprar e vender, para beber, comer, respirar, aquecer-se ao sol, nascer e morrer. E implora-lhe o céu para dar-lhe, abençoando o seu trabalho, meios com que pagar cada vez mais. O povo nunca fez outra coisa senão rezar e pagar.Pierre-Joseph Proudon—————————————–Para cada mil homens dedicados a cortar as folhas do mal, há apenas um atacando as raízes.Henry David Thoreau———————————————–


